EM CASO DE ... / S&L OUTUBRO 2006

 

Já alguma vez se sentou num lugar qualquer e se maravilhou com o silêncio à sua volta? Todos estamos intensamente conscientes do som porque é tão invulgar não haver barulho. Há sempre o zunido das máquinas, o ruído surdo do trânsito, de um avião, ou de pessoas a falarem. A moderna poluição sonora é subtil, imperceptível e mais perigosa do que nós pensamos.
A exposição à maioria dos barulhos causa irritação, stresse, e pode ter como resultado a perda permanente da audição, assim como outros problemas de saúde. É difícil eliminar o barulho. Muitas vezes, tentamos abafar o ruído ambiental que nos incomoda, com música. Se se gosta da música, é normal que o resultado seja menos problemas físicos.
Sabemos que as ondas cerebrais são modificadas pelos sons. As ondas cerebrais beta, as que estão entre os 14 e os 20 hertz, são as mais comuns. Alcançamos uma concentração relaxada ou uma consciência lúcida quando as ondas alfa, entre os 8 e os 13 hertz, estão presentes. A música com cerca de 60 batidas por minuto – particularmente a de Mozart, Brahms e Bach – mudam a actividade cerebral de beta para as ondas alfa, de uma atenção mais elevada.
É chamado o Efeito Mozart. Este tipo de música reduz o stresse e aumenta a concentração. Um estudo feito na Inglaterra constatou que os estudantes alcançavam mais 10 pontos num teste de QI depois de ouvirem Mozart, quando comparados com os expostos ao silêncio, barulho branco ou a outra música. (O barulho branco é apenas um barulho normal baixo. Os exemplos são a estática do rádio ou a água corrente).
Os investigadores sugerem que respondemos à música porque o nosso corpo é rítmico. A nossa respiração, batimento cardíaco, e muitas outras funções do corpo têm um ritmo intrínseco.

O aproveitamento comercial da música
Alguma música revigora as pessoas, enquanto outras melodias as acalmam. Há composições que podem fazer-nos sentir sonolentos ou manter-nos acordados. Os supermercados, os centros comerciais e até os organizadores de eventos têm utilizado a música para moldar o comportamento humano. A música pode ser usada para fazer com que as pessoas andem mais devagar ou mais depressa, para as incentivar a fazer compras durante mais tempo, para as persuadir a agir, ou ajudá-las a relaxar.

A influência da música
Outras pesquisas recentes ligam a exposição à música ao melhoramento de capacidades mentais. Einstein tocava violino e acreditava que isso ajudava o seu subconsciente a resolver problemas. Muitas pessoas que sofrem de insónia sentem que a música de Bach as ajuda. A música popular alegre dá energia e resistência. Estes resultados não são novos.
Mas, estar expostos a música de que não se gosta pode ter efeitos negativos, incluindo tensão arterial elevada e stresse. A maior parte dos adultos refere-se às músicas que os adolescentes ouvem, como sendo barulho. Os adolescentes, por sua vez, acham o mesmo da música de outras pessoas. Há a história de um grande grupo de adolescentes que se reunia diariamente à frente de uma loja de conveniência. Não estavam a fazer nada de errado, mas a sua presença irritava o dono da loja e os seus clientes. O dono teve uma ideia. Ligou a sua aparelhagem a colunas fora de loja e passou a transmitir música clássica. Pouco depois, os adolescentes desapareceram.
Martin Gardiner, da Universidade de Brown, estudou o relacionamento entre os registos de detenções de adolescentes e o envolvimento destes com a música. Gardiner chegou à conclusão de que quanto mais o adolescente estava envolvido com a música, menos eram os registos das detenções. Era menos provável os adolescentes que estudam música meterem-se em problemas, do que aqueles que não a estudavam. E os que tocavam um instrumento, eram membros de uma banda ou de um coro, tinham, ainda, menos problemas com a lei.
As lojas de vendas ao público descobriram que as vendas aumentam quando é tocada música fácil de ouvir. Aparentemente, esse tipo de música acalma os compradores e incentiva-os a passarem mais tempo na loja.
Música leve e tranquila tende a ajudar a maioria das pessoas a concentrarem-se durante mais tempo, e melhora a sua capacidade de memorizar factos. Contudo, para algumas pessoas esta música tem o efeito contrário. Ela distrai e perturba as que são mais analíticas ou inibidas do que o normal. Ouça vários tipos de música para determinar o seu efeito em si.
O ritmo da música religiosa induz a uma sensação de paz e ajuda a suportar a dor física e emocional. No outro extremo do espectro, a música de heavy metal, rap ou marcial excita o sistema nervoso e incita as pessoas a acções dinâmicas ou a comportamentos agressivos. Não é de admirar que os pilotos da Guerra do Golfo ouvissem gravações de música heavy metal antes de se lançarem nos seus voos ofensivos na batalha.

A música e a saúde
Estão a ser realizados mais estudos para determinar se a música pode curar ou ajudar em problemas emocionais e pessoas com traumatismos cerebrais ou doença de Alzheimer.
Há séculos que também são conhecidos os efeitos dos sons sobre outros aspectos da Natureza. No Sul da Índia, acredita-se que o suave zumbido de insectos garante uma saudável germinação da cana-de-açúcar. Experiências cuidadosamente levadas a efeito provaram que as plantas crescem mais depressa se se transmitir música, especialmente tons de baixa frequência entre os 100 e os 600 hertz, para os campos ou estufas. É sabido que os animais de quinta e os animais domésticos respondem à música.
O nosso batimento cardíaco tem a tendência de se sincronizar com qualquer pulsação ambiental. Há uma certa preocupação com as mudanças que o ritmo pouco natural da moderna música rap possam trazer ao corpo, às emoções e até ao subconsciente do ouvinte. Os efeitos a longo prazo ainda são desconhecidos.
A música irá influenciar a nossa saúde e o nosso comportamento. Ao conhecermos os seus efeitos, poderemos usá-la para nosso benefício.&

Roger H. Meyer
Repórter especializado em assuntos de saúde