NUTRIÇÃO / S&L OUTUBRO 2006

 

Entre 1930 e 1935, vários grupos de pesquisadores relataram a existência de um factor vitamínico essencial à alimentação animal. Mas foi só em 1938 que a vitamina B6 foi efectivamente identificada. O seu complexo químico recebeu primeiramente o nome de piridoxina. Mais tarde, foram descobertas outras duas formas também quimicamente activas dessa vitamina: a piridoxamina e o piridoxal. Assim, a vitamina B6 é um complexo desses três compostos químicos, todos fisiologicamente activos e relacionados entre si. As três formas mencionadas são encontradas em alimentos naturais e cada uma pode ser utilizada pelo metabolismo dos mamíferos.
A absorção das três formas químicas da vitamina B6 dá-se no intestino delgado, com rapidez. A excreção urinária posterior do excesso da vitamina também é feita com muita eficácia e rapidez pelo organismo. Cerca de 70 a 80% da vitamina B6 do organismo estão localizados no tecido muscular. A importância dessa localização é que a vitamina B6 é requerida na conversão do glicogénio muscular em glicose. Aproximadamente 10% da vitamina B6 situam-se no fígado, e o restante é distribuído entre os outros tecidos do organismo.
A vitamina B6 está envolvida na quebra de ligações químicas de vários tipos. Além de transformar glicogénio em glicose, ela tem a ver com o metabolismo de aminoácidos e neurotransmissores. Pode ligar-se a receptores de hormonas esteróides e, dessa forma, regular a acção dessas hormonas. Está ainda envolvida no metabolismo de lípidos.
O sistema imunitário do organismo também é dependente da vitamina B6, que actua na manutenção da imunidade celular. Existem especulações científicas de que certas condições patológicas, como a demência, sejam decorrentes de um fornecimento insuficiente de vitaminas, em especial da vitamina B6. Mas isso não está cientificamente comprovado.
Estudos feitos em ratos e ratazanas apontam que as três formas químicas da vitamina B6 têm a capacidade de actuar de forma preventiva na ocorrência de convulsões fatais provocadas por princípios químicos activos.

Deficiências
Alterações nas funções do sistema nervoso, geralmente evidenciadas por electroencefalografia, estão entre os primeiros sintomas de deficiência de vitamina B6. Podem aparecer sintomas como depressão, náuseas, vómitos, dermatite seborreica, lesões de membranas mucosas, neurites periféricas, hiperirritabilidade, alteração da mobilidade, movimentos anormais da cabeça e convulsões. Só nos casos de deficiência severa da vitamina, o que é raro, haverá o aparecimento de dermatites, glossite, estomatite e anemia. Mas podem ocorrer deficiências menores e mais subtis, especialmente em mulheres idosas.
Entre os medicamentos que apresentam interacção química com a vitamina B6 estão: tetraciclina, isoniaziada, eritromicina, corticosteróides, neomicina, penicilina e bussulfan. Eles actuam directa ou indirectamente no metabolismo da piridoxina. A necessidade da vitamina B6 pode aumentar no período sob terapêutica com essas drogas.
A convulsão dependente de piridoxina e alguns tipos de anemias respondem bem à suplementação com vitamina B6. Suplementos de vitamina B6 podem ser necessários quando a pessoa está a usar medicamentos que alteram o metabolismo dessa vitamina.


Recomendações nutricionais
As necessidades dietéticas estão directamente relacionadas com a ingestão de proteínas. A ingestão adequada varia de acordo com o sexo e a idade. Para crianças até seis meses de idade, é recomendado 0,1 mg/dia; de seis meses a um ano, 0,3 mg/dia; entre 1 e 3 anos, 0,5 mg/dia; de 4 a 8 anos, 0,6 mg/dia; 9 a 13 anos, 1,0 mg/dia. Para homens entre 14 e 50 anos, a recomendação é de 1,3 mg/dia, e para aqueles com mais de 51 anos, 1,7 mg/dia. Para mulheres entre 14 a 18 anos, a recomendação é de 1,2 mg/dia; de 19 a 50 anos, 1,3 mg/dia; e para aquelas com mais de 51 anos de idade, 1,5 mg/dia. Durante a gestação e lactação é recomendada a ingestão de 1,9 e 2,0 mg/dia, respectivamente.
Pode haver níveis menores da vitamina no organismo de indivíduos que estejam a usar contraceptivos orais; neste caso, a recomendação de ingestão da vitamina é mais elevada para compensar o déficet causado pela droga. As gestantes que apresentem vómitos com frequência devem ser avaliadas criteriosamente, pois a necessidade poderá estar a aumentar devido aos distúrbios metabólicos. Os indivíduos que fazem radioterapia também podem apresentar alterações metabólicas que requeiram teores diários mais elevados da vitamina.

Fontes alimentares
A piridoxina está presente nos alimentos mais comuns, sendo encontrada em maior proporção em alimentos de origem animal como as carnes de aves e de peixes, leite e ovos. Entre os vegetais, merecem destaque a banana, a batata, a aveia, o germe de trigo e os grãos integrais.
Cabe mencionar que a piridoxina sofre grandes perdas durante a cocção, embora muito mais por exposição à luz do que ao calor propriamente dito. O congelamento dos alimentos pode levar a uma perda de até 20% da piridoxina contida no produto.
As três formas químicas da vitamina B6 apresentam baixa toxicidade. Experiências feitas com animais (ratos, coelhos e cães) demonstram a tolerância a doses de 1 g/kg de peso, com mínimo efeito colateral.
Estudos recentes envolvem a biodisponibilidade da piridoxina em outras formas químicas e em diversas plantas, melhorando os métodos de avaliação da vitamina B6 e da quantidade requerida.&

Késia Diego Quintaes
Nutricionista e professora
universitária