INFORMAÇÃO / S&L JANEIRO 2008

Educar uma criança sempre foi a tarefa mais nobre confiada pelo Criador ao ser humano. Mas hoje, mais do que nunca, é o maior dos desafios que temos que enfrentar. Porque “a criança”, como afirmou a grande educadora Maria Montessori, “não é um estranho, que o adulto pode considerar apenas pelo lado exterior, com critérios objectivos. A criança constitui o elemento mais importante da vida do adulto – é o construtor do adulto”.
Por isso, ao reflectir sobre este tema e ao analisar a crise actual da educação pelo prisma de quatro décadas de vida a lidar com crianças e seus pais, não posso deixar de sentir uma profunda angústia, feita de muitas interrogações, sobre o que estamos a fazer como sociedade e como pais e avós, para ajudar a “construir” as mulheres e os homens das gerações seguintes. Porque, citando ainda a mesma autora, “o maior delito que a Sociedade comete é dissipar o dinheiro que devia gastar com os seus filhos, malgastando-o para os destruir e destruir-se a si própria”.
Os pais de hoje vivem o paradoxo de pertencerem a uma geração demasiado preocupada com o trabalho e consigo mesmos e, ao mesmo tempo, demasiado centrada nos filhos, mas não de forma sensata e equilibrada. Estes são para os pais, muitas vezes, uma oferta lúdica e não uma tarefa responsabilizante. Em vez de orientação, dão-lhes só amor, mas sem regras e sem limites. A criança, nestas circunstâncias, nunca chega a aprender o significado da palavra “não” e torna-se o objecto do culto da família, que transfere para ela todos os seus ideais não satisfeitos, bem como os seus traumas e frustrações.
A convivência, dia a dia, com pais e filhos, tem-me mostrado que muitos pais e, sobretudo, mães, abstêm-se de ter quaisquer atitudes educativas consequentes, por se sentirem dominadas por um sentimento de culpa proveniente do facto de estarem tão pouco tempo com os filhos. Não procuram, então, educá-los, deixando essa tarefa para os “técnicos” que são quem está com eles durante todo o dia!...
Poderíamos, desta forma, dizer que a paternidade está em crise porque, antes de mais, estamos a educar apressadamente uma geração de filhos que são empurrados de casa para o infantário, para a escola, para o ATL, para as actividades extra-curriculares, ou para qualquer outra coisa. Como uma das consequências, surge, até, o controlo à distância dos filhos, pelo telemóvel, a que já se chama “telepaternidade”...
Hoje, as crianças, muitas vezes, já nem conseguem ser a frágil cola que mantém os pais unidos. A estes, por sua vez (fruto da sua própria e mal conseguida educação), falta a maturidade necessária para serem pais, falhando na assunção das suas responsabilidades de cônjuges e de educadores.
Noutros casos, nestes tempos de “dissolução da família e da paternidade solteira, é frequente que os filhos sejam mesmo a única ligação permanente em que um adulto se possa apoiar”. Numa sociedade em que se desvaloriza o bem essencial do verdadeiro amor, essa dependência afectiva de muitos pais, em relação ao amor dos filhos, leva-os a permitirem-lhes a liberdade de tal forma que se esqueçam que a liberdade tem um irmão gémeo que é o dever. Ao fazerem-no, têm a esperança que isso fortaleça os seus laços afectivos com os filhos. Mas é o contrário que se verifica. As consequências negativas são máximas na adolescência, com o perigo da alienação comportamental do jovem, reflectida na irresponsabilidade em todos os aspectos: insucesso escolar, droga, sexualidade precoce e sem princípios, falhanço dos ideais de vida e prolongamento da dependência dos pais, mas sem respeito por eles.
A criança e o jovem sentem-se perdidos quando o seu adulto/referência abdica da sua autoridade natural, embora se possam revoltar muitas vezes contra ela. “Ser-se uma figura de autoridade para os filhos é incutir neles o respeito pela nossa sabedoria e a confiança na nossa capacidade de os guiar ao longo da infância, pensando apenas nos seus melhores interesses. Quando fundido com o amor, permite que a criança se sinta acarinhada e protegida, enquanto estabelece simultaneamente uma ‘oposição benigna’ na qual pode testar a resistência dos pais ao contestar a autoridade, mas apenas dentro de certos limites”. “Quando os pais renunciam à autoridade, as relações entre pais e filhos ficam reduzidas à luta pelo poder.”


 Então, o que se espera dos pais?
Ao longo dos anos, os objectivos da educação têm variado, consoante os objetivos finais das sociedades que a inspiram. Na nossa, de matriz ocidental e cristã, a base da educação não deveria pôr de parte os princípios directores que nos vêm do passado, apesar de toda a carga tecnológica que hoje nos esmaga. E a realidade é tão simples como o conselho dado há milhares de anos pelo sábio Salomão: “Ensina o menino no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer, não se desviará dele.” (Provérbios 22:6).
Esse ensino pressupõe, antes de mais, o respeito pelas leis que regem o nosso ser e que, sendo consideradas, nos permitem gozar de uma melhor saúde e bem-estar. A criança, desde uma idade muito precoce, pode compreender isso. Mas a educação visa, acima de tudo, a formação de um carácter equilibrado, sensível à existência e às necessidades dos outros, e capaz de exercer a força de vontade necessária e suficiente para, ao alcançar a idade adulta, ter a maturidade para assumir a sua independência com responsabilidade e defendendo, no devir da vida, os valores que lhe foram transmitidos na infância.
Para atingir esse objectivo é bom lembrar que “as lições que a criança aprende nos primeiros sete anos de vida têm mais a ver com a formação do carácter do que tudo o que ela aprende em anos posteriores”. E desses anos, os primeiros dois, três anos, são fulcrais porque é neles que se aprende o valor do Não!, dito pelos pais.
O NÃO! Esta é a palavra chave da disciplina que, antes de mais, pressupõe que as exigências de obediência da parte dos pais sejam sempre razoáveis, equilibradas e adaptadas à idade e compreensão da criança. Se assim não for, “a vontade que a criança tem de aprender e amadurecer pode ser danificada se os pais estiverem constantemente a dirigi-la e a dominá-la”. Com a certeza, também, de que, por outro lado a transigência, como regra, “torna a criança inquieta, descontente e insatisfeita com tudo”. A Drª Diane Ehrensaft, no seu livro Pais que mimam demais, afirma, com a autoridade da sua experiência de psicoterapeuta familiar: “os pais actuais possuem a maleita de não terem a energia ou o tempo para guiarem os filhos e colocá-los novamente na linha quando estes começam a tresmalhar-se”; “na paternidade suficientemente boa, a disciplina não é separada, faz parte integral do amor.”
A falta de disciplina leva à desordem e, como diz, também, Maria Montessori, “a criancinha não pode viver com desordem; esta transtorna-a, fazendo-a sofrer”.
Os pais não devem pretender ser os “construtores” da criança mas antes os seus guias e orientadores, tal como a árvore que, no seu crescimento não harmonioso, também precisa de um tutor.
Quando? Muitos pais dizem: “É ainda muito pequenino para compreender. Daqui a alguns anos, vamos conseguir explicar-lhe melhor como deve proceder.” Talvez a intenção seja boa, porque desejam respeitar a dignidade da criança que têm de educar; mas não se dão conta das dificuldades que vão encontrar quando quiserem incutir um hábito novo num carácter já formado. Se não procurarem educá-la desde o berço, com normas seguras e equilibradas e com persistência, a criança facilmente se aperceberá que é ela quem dita as leis e pode manusear os sentimentos dos pais a seu bel-prazer. Não se trata de discutir com uma criança ainda pequena, nem mesmo de a prender pelos sentimentos para se fazer obedecer. É preciso muito simplesmente, com tanta firmeza como bondade, opor-se ao que lhe não é permitido”.
Quando me perguntam como reagir perante uma criança naturalmente teimosa e obstinada, costumo responder: “Se o que a criança está a tentar fazer é próprio da sua idade e inexperiência e não a coloca a ela ou a outros em perigo, o melhor é tentar ignorar o que está a acontecer e manter uma atitude vigilante; mas se o que se passa é uma obstinação grave, já repreendida anteriormente e de consequências nocivas para a criança ou para os outros, a firmeza dos pais deve ser total e, seja qual for a reacção da criança, são eles que têm de vencer a batalha!..” O amor e a firmeza são as duas palavras chave da educação. Postas ao mesmo nível na balança são a melhor garantia do sucesso da tarefa educativa.
Como? Como qualquer actividade humana, educar uma criança tem regras básicas sem as quais ela não faz qualquer sentido nem alcançará jamais o fim desejado.
Embora caiba mais vezes à mãe a principal tarefa, o evoluir da sociedade faz cada vez mais do pai parceiro indispensável e actuante. Numa família comum, será até desejável que seja uma tarefa bem repartida pelos dois.
Assim, educar, como? O pai não deve criticar a mãe na presença da criança (e vive-versa) e, sobretudo, deve haver total sintonia educativa quando se lida com ela, mesmo que longe dela as opiniões dos pais divirjam.
A criança tem de comprender aquilo que lhe ensinam e lhe ordenam, mas sem levar a explicação ao infinito. E se ainda é pequena de mais para compreender os limites que se lhe impõem, é fundamental que sinta que quem a contraria também a ama e a protege.

“A disciplina correcta terá de ser o produto de uma boa planificação educativa; deve começar a aplicar-se logo desde os primeiros dias de vida e deve prolongar-se até ao fim, com particular incidência nos anos da infância e da adolescência.
“Em última instância, a disciplina correcta e exercida com amor, proporciona aos pais e às crianças enorme satisfação, abrindo as portas para uma vida feliz, cheia de realizações positivas e ponderadas.
“Em contrapartida, o descuido ou a aplicação errada da disciplina produzem, como consequência, a debilidade moral e um carácter deficiente nos filhos, além de cobrir de ansiedade e aflição toda a família.”
A CRIANÇA - A arte de saber educar, dos Drs. Raúl Posse e Julián Melgosa
(edição Publicadora SerVir)


As pequenas contrariedades da vida preparam para as grandes. Não se devem tirar todos os obstáculos do caminho de uma criança. Ela necessita de aprender, de acordo com a sua idade, o que é a solidão, a angústia e o sofrimento. Só assim poderá ganhar os anti-corpos necessários para se defender contra os obstáculos naturais da vida.
A criança não tem a noção clara do que é uma pequena ou uma grande falta. A punição desta deve ser de acordo com a culpabilidade assumida e não com a sua real gravidade. Como diz o Dr. Patrick Delaroche, no seu livro Aprender a dizer não!, “quando os adolescentes cometem uma falta grave e que é preciso reparar, se lhes perguntarmos que punição merece essa falta ficamos sempre surpreendidos, pois essa punição é sempre superior àquela que nós proporíamos”.
As “faltas” de uma criança nem sempre são consequência de uma atitude rebelde e desafiadora. Muitas vezes são o resultado da sua natural ignorância e inexperiência. Ela gosta de experimentar os limites do adulto, desobedecendo, mas também gosta de atrair a sua amizade, pela obediência. Compete aos pais saberem despertar a mola real da sua natural vontade de se portar bem.
A punição, ou o anúncio da mesma, nunca devem ser observados por terceiros. É um assunto entre a criança e quem a educa. A humilhação diante de outras pessoas pode marcar profundamente a criança e levá-la a perder a relação de confiança com o seu educador.
Mais vale uma “palmada” merecida e na altura própria do que um castigo corporal, ou outro, encenado para mais tarde e que fica a pesar como uma espada de Dâmocles sobre a cabeça da criança.
Um castigo aplicado a uma criança nunca deve ser um tubo de escape para o nervosismo ou frustração do adulto, mas uma necessidade real na educação da criança.
Se um castigo está previsto, só deverá ser levantado em casos compreensíveis e mediante uma explicação adequadamente feita à criança. Não cumprir aquilo que foi prometido é um descrédito para o educador e uma total perda de autoridade em futuras situações.
Segundo especialistas comportamentais, a maior parte das perturbações da criança, desde a simples agitação às perturbações graves da personalidade não têm causa genética ou orgânica mas provêm apenas do facto de não terem sido ensinadas a obedecer.
Em resumo e como diz o autor que citámos em último lugar: “a educação deve ser precoce. De certo modo podemos dizer que tudo está decidido aos dois anos! ... É preciso que a proibição venha no momento certo. Nem demasiado cedo, nem demasiado tarde.”
Para quê? O objectivo último da educação é a formação do carácter, respeitando a personalidade própria da criança. Raciocinando em termos informáticos, a personalidade será o “hardware” que já vem da origem e o carácter o “software” que vai sendo instalado desde o nascimento e por toda a vida.
O carácter é a fonte de onde brota o comportamento. Ellen White, célebre educadora americana do século XIX, afirmou no seu livro Orientação da Criança: “O verdadeiro carácter é uma qualidade da alma que se revela no comportamento... A sua resistência consiste em duas coisas – força de vontade e domínio de si mesmo... Se as mães apresentarem à sociedade filhos que tenham integridade de carácter, com princípios firmes e moral sã, terão realizado o mais importante de todos os trabalhos.”
Não poderá ser este um desafio estimulante, extraordinário e gratificante para todos os pais conscientes que estiveram a ler estas linhas?

Bibliografia Geral:
- A Criança (Maria Montessori)
- Pais que mimam demais (Drª Diane Ehrensaft)
- Para um Lar feliz (Samuel Ribeiro)
- Educação dará os seus frutos (Maurice Tièche)
- Aprender a dizer não! Conselhos aos pais (Patrick Delaroche)
- Dar Atenção à Criança (T. Berry Brazelton)
- Orientação da Criança (Ellen White)
- A Criança – A arte de saber educar (Raúl Posse e Julián Melgosa)