SAÚDE / S&L AGOSTO 2009 HELIOTERAPIA

A helioterapia tem raízes tão antigas como a História do homem. Afinal, basta observar os animais que instintivamente se aquecem ao sol em certos momentos e lugares, sabendo também abrigar-se dos seus raios com grande cautela. Heródoto aconselha: “É muito necessária a exposição ao sol por parte de um indivíduo cuja saúde exija cuidados, ou que precise de recuperar o peso corporal. No Inverno, na Primavera e no Outono, o paciente deve permitir que os raios solares incidam totalmente sobre o seu corpo. Mas no Verão, por causa do calor excessivo, esse método não deve ser usado para tratar pacientes debilitados.”
Os antigos gregos já sabiam que a helioterapia impedia o acúmulo excessivo de gordura corporal e tonificava o organismo, segundo anotações do médico Antillo (século II, d.C.).

Jogo colectivo
O que permite ao sol promover a cura e a prevenção de muitas doenças? Certamente um conjunto de factores: luz, calor, ar, condições nas quais os pacientes se encontram (movimento ou repouso). Vamos analisar cada um desses factores.
Luz. A luz, através do nervo óptico, estimula o cérebro e acciona numerosas funções fisiológicas. Mas o tipo de luz faz diferença. A luz de uma lâmpada eléctrica ou de um tubo fluorescente tem um efeito diferente sobre quase todas as funções fisiológicas. A luz solar apresenta um espectro completo de todas as radiações luminosas, enquanto as lâmpadas as reproduzem apenas em parte, mas nem sempre na mesma proporção.
Conforme a estação, as condições climatéricas e, sobretudo, o período do dia, prevalecem determinadas frequências e comprimentos de onda. Portanto, o efeito sobre a psique e o físico está sujeito a algumas variações. A maior parte dos vidros reflecte algumas frequências e permite a passagem de outras. Daí, expor-se ao sol atrás do vidro de uma janela não é submeter-se à legítima helioterapia.
Calor. O calor solar também é diferente daquele irradiado por um aquecedor, uma estufa ou um saco de água quente. Muitos distúrbios articulares e metabólicos respondem bem ao tratamento térmico, mas o sol supera em eficácia todos os complexos aparelhos terapêuticos construídos pelo homem.
Grande número de doentes que sofrem de dores nas costas como lombalgias, reumatismo e artroses, pode evitar intervenções cirúrgicas ou intensos tratamentos medicamentosos, após a acção helioterápica.
Banhos. Os banhos de sol também são “banhos de ar”. A exposição de boa parte do corpo ao ar livre constitui, por si mesmo, uma terapia. Além disso, os banhos solares induzem o nosso organismo a adaptar-se a uma variação contínua de temperatura, ainda que mínima, estimulam a circulação, o sistema de regulação térmica e as defesas imunológicas. Mesmo a pele não directamente exposta aos raios solares recebe uma boa dose de luz. O efeito combinado é aquele previsto no nosso genoma.

Activa ou passiva
missing image fileA helioterapia pode ser praticada tanto em movimento enérgico como em completo repouso. A escolha depende de uma série de factores climáticos, da constituição individual e das condições de saúde. Por exemplo, num dia frio de Inverno, é agradável fazer exercício físico rigoroso, pois ele permite expor os braços e a maior parte do corpo aos raios solares. Mas isso, obviamente, é aconselhável a quem se acha em boas condições de saúde e também em razoável forma física.
A helioterapia em doentes debilitados é ministrada mediante movimentos físicos leves ou em absoluto repouso. Existem, nesses casos, algumas variáveis segundo as condições sazonais e climáticas.

As antenas
A nossa pele não é um simples invólucro, mas uma “antena” muito sensível; um receptor que colhe e emite mensagens ambientais. Ela é particularmente sensível à exposição solar. Concentra e irradia energia, e actua como uma verdadeira central de transformação. Boa parte do metabolismo de algumas vitaminas (sobretudo a D), do colesterol e das hormonas, ocorre nesse órgão que é o mais ténue e também o mais extenso e pesado. Sem a sua actuação, o nosso sistema imunológico não funcionaria.
Os olhos são outro colector de energia solar. Os estímulos luminosos chegam ao cérebro através do órgão da visão. Viver sob ausência da luz solar pode gerar estados depressivos, inibir a criatividade, a motivação e a produção de diversas hormonas e neurotransmissores.
Para funcionarem correctamente, parece que a epífise e a hipófise, importantes glândulas localizadas no interior do cérebro, dependem da luz solar transmitida pelos olhos. Nos invisuais, parece que outras partes do corpo desempenham essa função. É melhor, então, evitar o uso continuado de lentes escuras. Nas horas de luz solar pouco intensa, é aconselhável expor-se aos raios tépidos com os olhos fechados, sem qualquer tipo de óculos.

Instruções básicas
missing image fileComo praticar a helioterapia? A resposta, também nesse caso, depende de muitos factores. Nos climas temperados, é possível expor boa parte da superfície corporal ao ar livre e à luz natural, durante quase todo o ano. Onde a insolação é intensa devem ser tomadas precauções para evitar excessos, seja de calor, seja de radiações ultravioletas.
Nas zonas mais frias, ao contrário, pode recorrer-se a estratégias especiais para ajudar o sol na sua actividade terapêutica. Em geral, a helioterapia prevê a exposição da pele nua e limpa ao sol, sem qualquer cosmético. Os resíduos de perfume, sabonete e outros cosméticos podem sensibilizar a pele e provocar reacções indesejáveis ao contacto com os raios solares.
Se o clima e o ambiente permitirem, a helioterapia sugere a exposição total da pele ao sol. Isso implica, inclusivamente, movimentos rotatórios do corpo, em todas as direcções. Em clima frio, pode recorrer-se a uma forma tradicional de helioterapia: envolver o paciente em cobertores de lã pura, branca, e depois expô-lo ao sol até suar intensamente. As pessoas fracas devem ser acompanhadas. É preciso dar-lhes de beber, cobrir a cabeça, abaná-las com leques, ou refrescar o seu rosto e as mãos com panos húmidos, segundo a necessidade.
Quem tem pele clara está predisposto a ter, a curto prazo, os benefícios da helioterapia. A quantidade de melanina que pode impedir a passagem dos raios solares é menor e, normalmente, a pele é mais fina, com menos estratos córneos a servir de barreira. As peles escuras ou morenas exigem uma exposição mais prolongada. Não são raros os casos de raquitismo entre crianças africanas que têm um estilo de vida ocidental e não recebem irradiações solares suficientes para as suas exigências genéticas.
Na helioterapia, o bronzeamento não é o objectivo maior, mas um efeito colateral desejado ou não, segundo a preferência pessoal. Entretanto, valem as mesmas regras de exposição gradual, menos demorada nos primeiros dias, sobretudo para quem tem pele clara e tendência para sardas ou pintas. O avermelhamento intenso é um sério sinal de alarme. Cada queimadura solar envolve danos graves e permanentes, e precisa de ser evitada.
Semelhantemente, o aquecimento excessivo deve ser prevenido. É melhor alternar luz e sombra para manter uma temperatura sempre confortável. O nosso organismo defende-se do excesso de calor segregando suor, num engenhoso e eficiente sistema de arrefecimento. Com o suor, também expelimos boa parte das toxinas. Enfim, o suor contém substâncias como ácido láctico, que torna a pele elástica e hidratada; cloreto de sódio, que realiza um peeling leve e natural; e ácido urocânico, que é um tipo de filtro solar. Por esse motivo, não se deve cometer excessos nos banhos, mergulhos ou duches refrescantes.
Os lugares mais adequados à prática de helioterapia devem ser escolhidos conforme a estação do ano e as condições climatéricas mais apropriadas. Pode ser suficiente um pequeno espaço na varanda ou no terraço, mas um jardim é mais convidativo. No Verão, ainda oferece mais frescor. Os doentes graves ou muito debilitados devem contar com a assistência de um profissional qualificado.
A única contra-indicação é a poluição urbana. O ozono, tão importante nas outras camadas atmosféricas para nos proteger das radiações cósmicas, torna-se nosso inimigo quando concentrado no ar que respiramos e combinado com gases provenientes do escape de veículos e chaminés industriais.
No Verão, o efeito negativo é multiplicado. Verifica-se nas cidades um aumento de casos de cefaleia, irritação das vias respiratórias e cansaço. Em dias de sol intenso, quando as taxas de ozono estão muito altas, são desaconselhadas as escaladas em montanhas. Fique atento às condições do ozono durante o dia.
Nos dias mais curtos, em que a inclinação do eixo terrestre é tal que os raios solares incidentes são muito atenuados, é bom usar a helioterapia nas horas altas, ou seja, entre as 11h00 e as 13h00. No Verão, esse horário deve ser evitado. Nas regiões quentes, as horas proibidas vão das 10h00 às 16h00. O maior benefício do sol sobre o humor e o metabolismo é obtido nas horas matutinas. Prevalecem nelas frequências luminosas específicas que o olho atento consegue identificar na diversidade de cores, no céu e na vegetação.

 

Doenças tratáveis pela helioterapia

Os benefícios da helioterapia estendem-se a muitos órgãos e sistemas, além de melhorar o estado geral e aumentar as defesas imunológicas. Eis uma visão resumida desses benefícios:
• Pele. É o órgão mais beneficiado. Muitos distúrbios dermatológicos podem receber benefícios helioterapêuticos, como, por exemplo, várias formas de acne, furúnculos, dermatites, dermatoses, eczemas, psoríase, herpes simples, quelóides e também algumas formas de alopecia. As cicatrizes podem ser mais evidentes no início, uma vez que tende a haver distribuição diferenciada de melanina em relação à pele ao seu redor. Todavia, o tratamento de helioterapia a longo prazo reduz paulatinamente as cicatrizes, sejam elas provenientes de cirurgia, cortes ou queimaduras (excepto as solares). A pele torna-se mais resistente ao ataque de parasitas, por causa do aumento das defesas imunológicas.
• Vias respiratórias. No passado, pacientes de tuberculose eram frequentemente submetidos à helioterapia, em ambientes com ar puro. Ainda hoje, observa-se que as crianças débeis, sujeitas a constipações constantes, bronquites e sinusites, melhoram, ao ficarem mais tempo ao ar livre.

Mesmo as reacções alérgicas do aparelho respiratório parecem responder muito bem à helioterapia. As laringites, faringites e otites tornam-se mais raras.
• Sistema cardiorrespiratório. O coração e a circulação obtêm benefícios da helioterapia, sobretudo se praticada a longo prazo. Assim, é bom utilizá-la durante o ano todo, pelo menos em certa medida. As indicações específicas são: anemia, hipertensão e hipotensão. As veias varicosas requerem cuidados especiais, como a combinação com técnicas de hidroterapia.
• Sistema nervoso. É notável o efeito da helioterapia sobre o humor, especificamente em casos de neurastenia, depressão, alternâncias acentuadas de humor, meteoropatia acompanhada de ansiedade ou nervosismo.
• Sistema músculo-esquelético. As fracturas ósseas são melhor tratadas através da helioterapia. A osteoporose pode ser mantida sob controlo, graças ao incremento de produção da vitamina D, necessária à construção do novo tecido ósseo. Lombalgias, reumatismos e artroses são tratados pela helioterapia.
O raquitismo, doença grave que, no passado, atingia crianças de áreas muito populosas e sem muitas possibilidades de sair para o ar livre, hoje é um problema resolvido.

Contudo, os ossos de crianças e jovens que passam mais tempo ao ar livre são marcadamente mais fortes em relação aos dos seus companheiros que permanecem durante longos períodos em ambientes fechados. As cãibras musculares parecem diminuir rapidamente depois de uma série de aplicações de helioterapia.

• Trato urogenital. Com o auxílio da helioterapia, as inflamações e infecções apresentam um decurso mais leve e passageiro.

• Sistema hormonal. O sistema hormonal parece particularmente sensível à helioterapia. Amenorreia, dismenorreia, síndrome pré-menstrual, distúrbios da menopausa ou da andropausa são as indicações específicas.

• Doenças infecciosas. Ocorre menor exposição a infecções sazonais (gripes, constipações, etc.) a quem pratica a helioterapia durante todo o ano e com suficiente frequência.

 

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Gudrun Dalla Via
Médica