PREVENÇÃO / S&L AGOSTO 2009 VIAGEM SEGURA

Chegámos às tão ansiadas férias. Muitas famílias começam a preparar-se para o descanso merecido. Mas quando os planos incluem uma viagem de carro, deve fazer-se o possível para evitar acidentes no percurso. Mesmo para um motorista prudente e um automóvel em boas condições, viajar nas estradas do nosso país torna-se uma aventura perigosa. Todos os anos, centenas de pessoas perdem a vida em acidentes automobilísticos em Portugal. A essa estatística cruel adicione--se, para cada morte, 2 a 4 sobreviventes com sequelas consideradas graves.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), os acidentes automobilísticos são a principal causa de morte violenta no mundo. Eles matam mais do que as guerras, os suicídios e homicídios. No ano 2000, um milhão e duzentas mil pessoas morreram nas estradas do mundo todo, e 50 milhões ficaram feridas, algumas com gravidade. Esses números levaram a OMS e a Organização das Nações Unidas a unirem-se numa campanha mundial pela segurança no trânsito. Em 2004, o lema da organização foi “A segurança no trânsito não é acidental”.
Más estradas, defeitos mecânicos, catástrofes naturais ou terceiros. Muitas são as causas de acidentes com automóveis, mas a principal delas é o ser humano. Apesar dos acidentes serem, por definição, causais e imprevistos, a maioria dos especialistas acha que está nas nossas mãos reflectir sobre as causas dos acidentes e reduzir os assustadores números de morte nas estradas.

Volante embriagado
Não nos devemos resignar e considerar normal o morticínio nas nossas estradas. Um dos factores evitáveis que mais contribuem para essa triste realidade é o uso de bebidas alcoólicas. Uma pesquisa mostra que, uma em cada quatro mortes por acidente automobilístico deve-se ao facto do condutor estar alcoolizado. A pesquisa também mostrou que os jovens (20 a 39 anos de idade) são as maiores vítimas, e que a maioria dos acidentes ocorrem no fim-de-semana, principalmente nas noites de Sábado.
A concentração total de álcool na cerveja é de 4% a 6%. O vinho tem 12%. As bebidas brancas, como o rum, aguardente, uísque e vodka, 50% a 56%. A taxa de álcool no sangue varia de acordo com o peso, a altura e as condições físicas de cada pessoa. Entretanto, em média, a ingestão de duas latas de cerveja ou duas doses de bebidas destiladas (aguardente ou uísque) são suficientes para alcoolizar uma pessoa.
Beber um copo e meio de cerveja significa ingerir 20 gramas de álcool. E quem pensa que isso é pouco, que avalie estas conclusões: a presença de 0,6 g/l (grama por litro) de álcool na corrente sanguínea, aumenta o risco de acidentes de trânsito em 50%; 0,8 g/l aumenta o risco em quatro vezes, e 1,5 g/l eleva esse número em 25 vezes.
Segundo o Dr. Hélnio Judson Nogueira, médico nefrologista, mesmo pequenas doses de álcool afectam severamente o cérebro. “As mesmas doses diárias ‘recomendadas’ para a saúde do coração impossibilitam um motorista de conduzir. Sempre que alguém bebe, ainda que seja só um pouquinho, milhares de células são destruídas no fígado, nos testículos, no coração e no cérebro. Depois, com algum cuidado, as células do fígado e do coração podem recuperar. Já no cérebro, a perda parece ser definitiva.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Veja os efeitos do álcool sobre o cérebro:
0,15 g/l (grama por litro de sangue) – diminuição dos reflexos.
0,3 g/l – perturbação dos movimentos.
0,5 g/l a 0,8 g/l – aumento do tempo de reacção, percepção errada da velocidade, reacções motoras alteradas e estado de euforia.
0,8 g/l a 1,5 g/l – reflexos cada vez mais alterados, ligeira embriaguez, sonolência, fadiga e dificuldade visual.
1,5 g/l a 3 g/l – perturbação da marcha, embriaguez nítida.
3 g/l a 5 g/l – embriaguez profunda.
Acima dos 5 g/l – coma profundo que pode levar à morte.
“Todos os estudos”, afirma o Dr. Hélnio, “demonstram que não existe um limite seguro. Só quem não bebe nada pode estar livre de riscos.”

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Cuidados enquanto conduz

• Use sempre o cinto de segurança e certifique-se de que os passageiros, inclusivamente os do banco de trás, também façam uso dele durante toda a viagem.
• Respeite a sinalização.
• Não avance sobre a passadeira de peões.
• Seja paciente. Não corresponda às atitudes negativas de outros motoristas e não se irrite com
as falhas alheias. Lembre-se de que também erra.

• Não ultrapasse pela direita nem conduza pela berma.
• Pare pelo menos a um metro de distância do carro à sua frente. Em subidas, dois.
• Não buzine para protestar com outros motoristas.
• Para qualquer manobra, use o pisca.
• Não utilize o telemóvel enquanto conduz. A probabilidade de haver um acidente enquanto o usa é cinco vezes maior. Enquanto usa o teclado do telemóvel, conduzindo a 100 km/h, um motorista percorre 140 metros sem ver a estrada.
• Dê prioridade aos peões.
• Não conduza em condições anormais (com sono ou sob o efeito do álcool ou de drogas).
• Não pense que é rápido o suficiente para evitar um acidente. Os acidentes demoram 0,15 segundos para ocorrer, enquanto a reacção humana é de, aproximadamente, dois segundos.

Fonte: Dersa, SP

 

A pressa que mata
A segunda maior causa de mortes no tr ânsito é o excesso de velocidade. Um acidente fatal em cada dois tem origem na velocidade excessiva. A pressa de chegar rapidamente, o pouco tempo e o desejo de aproveitar ao máximo o tempo no destino, fazem com que os motoristas excedam os limites regulamentares. Para tentar contornar a situação, muitos viajam à noite, cansados, stressados e, o que é pior, muitas vezes sob o efeito de ressaca e bebidas alcoólicas.
É importante lembrar que os limites de velocidade são fixados levando em consideração as características da estrada, os limites fisiológicos do condutor (percepção, tempo de reacção, resistência ao impacto visual) e algumas leis da física, entre elas a distância de travagem do veículo face à velocidade.
À medida que a velocidade aumenta, o campo visual diminui. A 40 km/h, o campo visual é de 100o. A 120 km/h a redução é de 70%, passando para 30o. Mesmo em estado de sobriedade, quanto mais informações o cérebro recebe, mais difícil se torna processar todos os dados (pedestres na pista, motociclista, animais, o carro que vem atrás, o que está ao lado, o que está à frente, a curva, a ponte, etc.).

Bagagem perigosa

Testes realizados na Europa mostram que a maioria dos veículos não estão preparados para suportar o peso do deslocamento da bagagem acondicionada no porta-bagagens. Os passageiros do banco de trás podem ser esmagados. Algumas precauções para amenizar as consequências de acidentes, caso o porta-bagagens esteja cheio, incluem:
• Apertar os cintos de segurança, mesmo que não viaje ninguém atrás. Eles podem ajudar o encosto do banco a resistir ao impacto.
• Se transportar malas pesadas, evitar levar um passageiro ou uma cadeira de criança na posição central.
• Colocar as malas mais pesadas na parte de baixo do porta-bagagens.

Fonte: Proteste

Outras precauções incluem evitar levar objectos pontiagudos sem que estejam em estojos especiais e acondicionados correctamente no fundo do porta-bagagens. Embalagens contendo produtos com aerossol também devem ser embalados e acomodados no fundo do porta-bagagens. Sabe-se de casos em que estas embalagens se tornaram verdadeiras bombas, explodindo e atravessando os estofos do banco traseiro.


A velocidade excessiva será sempre um convite para acidentes. Sabe-se que uma redução de velocidade em 10% tem como consequência uma diminuição de 10% dos riscos de acidentes leves, de 20% dos acidentes sérios e de 40% dos acidentes fatais.
Outro aspecto que se deve levar em conta é o tempo de paragem, ou seja, o tempo que o veículo leva desde que se começa a travar até que pare totalmente. Aqui, estão envolvidos vários factores: a velocidade do veículo, o tempo de reacção do motorista e a distância de travagem. O tempo de reacção varia entre um e dois segundos, dependendo do nível de atenção do condutor, da sua experiência ao volante e do seu estado físico. A distância de travagem depende da condição da estrada, molhada ou não, se tem areia ou óleo, e do estado dos pneus. Veja quanto espaço é necessário para parar completamente o veículo, numa estrada seca, com pneus em bom estado e com tempo de reacção de um segundo:
a 30 km/h, são necessários 13m
a 50 km/h, são necessários 28m
a 90 km/h, são necessários 70m
a 130 km/h, são necessários 129m.
Esses indicadores mostram que a melhor forma de garantir uma viagem segura é moderar a velocidade, obedecer às leis do trânsito, não andar demasiado depressa nem exageradamente devagar (isso também provoca acidentes).
Para evitar problemas, mantenha uma distância de segurança do veículo da frente. Os especialistas ensinam: na auto-estrada, a distância de segurança nunca deve ser inferior a 90 m. Observe um ponto fixo qualquer entre o veículo à sua frente e o seu carro, e calcule dois segundos, soletrando as palavras “dois se gun dos”. Esses dois segundos representam entre 50 m e 90 m.
Lembre-se que até uma viagem de fim-de-semana exige o mínimo de organização. Se o tempo de que se dispõe é pouco e a distância a percorrer é grande, o melhor é sair mais cedo ou mudar o programa. Se tem apenas quatro dias e vai gastar dois dias (para ir e voltar), enfrentando engarrafamentos e estradas esburacadas, talvez o resultado do feriado seja pior do que ficar em casa e aproveitar o tempo com a família. Pense nisto também: o tempo que se ganha por viajar mais rapidamente, não compensa os riscos que se correm. Ao percorrer 100 km a 150 km/h em vez de a 100 km/h, poupa-se 20 minutos.

Saúde na viagem
Não pode haver incómodo maior do que adoecer enquanto se faz uma viagem de férias. O distúrbio chamado cinetose, o popular enjoo ou náusea, pode ser facilmente provocado pelo carro em movimento. Acontece com adultos, mas tem maior frequência em crianças por causa da sensibilidade do labirinto, região do ouvido responsável pelo equilíbrio do corpo. Para evitar o mal-estar, aconselha-se a dormir durante a viagem e a ingerir frutas, evitando-se doces, fritos e outros alimentos gordurosos.
pescoçoAntes e durante a viagem, é preferível comer pouco. As refeições pesadas podem provocar sonolência e a sensação de se estar a carregar um saco de cimento na barriga. É importante lembrar que a posição ao conduzir comprime, naturalmente, o estômago, causando incómodo. Além da quantidade de alimento, é preciso considerar dois outros factores: a composição e o tempo de digestão. Se for complexo (gorduroso, frito, cremoso, doce, excessivamente proteico) e mal equilibrado, a digestão será vagarosa e complicada.
Quem conduz precisa de estar alerta e não sonolento. A alimentação pesada favorece o torpor e até mesmo a dificuldade em raciocinar. Alguns preferem não comer nada, mas essa também é uma situação perigosa. Conduzir consome energia, principalmente se a condição de tráfego for stressante. A pessoa pode entrar em estado hipoglicémico, o que reduz a capacidade de concentração. Para funcionar bem, o cérebro precisa de glicose.
Quanto à ingestão de líquidos, não se deve esquecer que a desidratação afecta o bem-estar geral, compromete o tempo de reacção e diminui a resistência ao cansaço. Em grau avançado, provoca fadiga e prostração. Tenha sempre à mão uma garrafa de água mineral e beba sempre que sentir vontade.
A vida vale muito e todo o cuidado ao conduzir é pouco. Tantas vidas têm sido ceifadas por acidentes envolvendo automóveis, camiões e autocarros, que esse tipo de morte tornou-se um problema de saúde pública em todo o mundo. Actualmente, devemos preocupar-nos com a alimentação do condutor, com o que ele bebe e com seu comportamento enquanto conduz. Até aquilo que ele ouve ao volante merece atenção. Investigadores canadenses da Memorial University concluíram que o ritmo veloz de certas músicas acelera o ritmo cardíaco e a tensão arterial do condutor, causando acidentes. A famosa Cavalgada das Valquírias, de Richard Wagner, está no topo das perigosas, seguida da música de diversas bandas de rock. Planeie a melhor viagem de férias da sua vida. Para ir e para voltar.

Corpo em movimento
Ficar horas e horas sentado num carro, na mesma posição, provocará má circulação do sangue e reduz a energia vital. Além disso, sabe-se que ficar muito tempo sentado num espaço reduzido pode aumentar os riscos da trombose venosa profunda, a TVP. As mulheres grávidas ou que tomam anticoncepcionais, as pessoas obesas, os fumadores com doenças cardiovasculares e quem tem casos de hipertensão, trombose e diabetes na família, precisam de ficar mais alerta ainda. Em viagens longas, além de fazer paragens periódicas para “esticar as pernas” e fazer alguns alongamentos, siga as sugestões de exercícios do quadro:
1. Aperte o volante com força durante cinco segundos, relaxe durante 30 segundos. Repita cinco vezes.
2. Puxe o volante na sua direcção durante cinco segundos. Relaxe durante 30 segundos. Repita cinco vezes o movimento.
3. Tente encostar o queixo ao peito e ao mesmo tempo contraia o abdómen. Faça duas vezes.
4. Incline a cabeça para o lado esquerdo e depois para o direito. Cinco vezes.
5. Faça duas rotações dos ombros para a frente e duas para trás. Três séries.
6. Eleve os ombros em direcção às orelhas e baixe-os. Repita cinco vezes o movimento.
7. Eleve ligeiramente as pernas, centrando a contracção no abdómen. Repita cinco vezes o movimento.

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Francisco Lemos
Editor da nossa congénere Vida&Saúde