RESPONDE O MÈDICO/ S&L AGOSTO 2009

Varizes no esofago

Pergunta: O meu marido é alcoólico, vomitou sangue e, ao fazer uma endoscopia, o médico encontrou varizes no esófago. Essas varizes têm relação com as varizes das pernas?

R: Há dois tipos de vasos sanguíneos no nosso corpo: artérias e veias. As artérias são caracterizadas por levar o sangue oxigenado e nutritivo para os tecidos, e as veias por trazerem o sangue com anidrido carbónico e metabólitos dos tecidos.
No abdómen, temos uma veia importante, de nome porta, que é fruto da confluência da veia mesentérica superior e da veia esplénica, que vem do baço. A veia porta entra no fígado, levando o sangue que vem dos intestinos, rico em substâncias nutritivas. Ele passa pelas células hepáticas e o processo de metabolização dos nutrientes tem efeito. Para que o sangue flua pelo fígado com eficácia, há necessidade de que os canículos hepáticos estejam desobstruídos e que o fluxo sanguíneo seja contínuo.
Existem três grupos de pessoas que apresentam esse mecanismo intra-hepático alterado: os alcoólicos, os portadores de hepatite crónica e os portadores de esquistossomose (doença dos trópicos). Nessas pessoas ocorre a destruição do fígado (cirrose), com endurecimento e deformação dos canículos onde o sangue deveria passar. Com o tempo, o sangue encontra cada vez mais dificuldade de fluxo por eles, levando a um aumento de pressão retrógrada, inicialmente da veia porta, depois da mesentérica, da esplénica, e assim por diante. Como o sangue que deveria passar pelo fígado encontra dificuldade devido ao aumento da pressão na veia porta, ele procura outras alternativas para escapar. Uma delas é através do sistema de veias gástricas e esofágicas.
O fluxo aumentado das veias do esófago, que não foram feitas para levar tanto sangue, faz com que comecem a dilatar-se. Com o passar do tempo, transformam-se em verdadeiras varizes. Concomitante com a dilatação das veias esofágicas, o fígado continua a ser destruído, o que agrava ainda mais a pressão e a função hepática. O resultado pode ser o rompimento das varizes do esófago, caso não se tome alguma providência.
Uma vez confirmado o diagnóstico de varizes do esófago, faz-se a prevenção de ruptura com o uso de medicamentos betabloqueadores. Mais adiante, pode prevenir-se endoscopicamente, através de ligaduras elásticas. Na ocorrência de sangramento há ainda a possibilidade de escleroterapia endoscópica. Qualquer que seja o caso, no entanto, sempre que haja varizes, sabe-se que o caso é de relativa gravidade, necessitando de acompanhamento cuidadoso.
Melhor seria se a pessoa nunca tivesse bebido. A persistência no uso do álcool numa circunstância como essa fecha o diagnóstico quanto às complicações e evolui para o óbito.

Elmer Lima