CONSULTÓRIO FAMÍLIA AMIGA/ S&L AGOSTO 2009

Pergunta: Temos um filho de 10 anos, brevemente entrará na fase da adolescência… Estamos preocupados. Gostaríamos de saber que dificuldades vamos encontrar e como devemos preveni-las.

R: Se quiser ter acesso à primeira e segunda parte da resposta a esta questão, estão disponíveis nas revistas de Junho e de Julho.
Na última revista terminamos referindo que a adolescência é tempo de conquistas e escolhas, de desafios marcantes e insuperáveis. Como tal, a adolescência é, também, o tempo das ameaças. A necessidade de mudança, por um lado, e a de escolhas, por outro, explicam a vulnerabilidade psíquica potencial do adolescente.
Foram identificados três tipos de ameaças que espreitam a adolescência: a ameaça ansiosa, a ameaça depressiva, e a ameaça aditiva.
A ameaça ansiosa parece estar directamente ligada à emergência pubertária, à transformação do corpo com a flutuação da identidade que ela suscita. Deve--se também à necessária transformação das relações com o que rodeia o adolescente, com os pais, com os amigos e com os interesses da infância. Qualquer período de mudança determina uma certa dose de ansiedade. O adolescente não escapa às várias formas de ansiedade (crise de angústia ou ataque de pânico, fobias diversas, interesse ou timidez excessivos, etc.), tão frequentes nesta idade.
A ameaça depressiva resulta do trabalho necessário de perda e de luto (o adeus à infância) que toda a adolescência implica, conjugada com a necessidade de afastamento relativamente aos pais, mas mais ainda relativamente às imagens parentais que todo o indivíduo tem em si. O adolescente não só deve deixar a infância, a protecção dos pais e uma certa inocência, como também deve renunciar à omnipotência infantil para entrar no período dos paradoxos, dos conflitos e das escolhas. A depressão pode instalar-se quando o adolescente recusa empenhar-se nesse trabalho psicológico, sejam quais forem os motivos dessa recusa.
A ameaça aditiva resulta da impossibilidade de renúncia que qualquer escolha implica, especialmente as escolhas identitárias e afectivas. Por detrás de um adolescente com comportamentos aditivos temos um indivíduo cujo EU é demasiado frágil, e que para se proteger de sentimentos ansiosos e depressivos demasiado fortes, recorre ao consumo de substâncias.
Para finalizar a resposta à vossa questão, vou então falar-vos das modificações várias vividas nesta fase da adolescência. As modificações físicas, as modificações da relação com os pais e, por fim, a construção de uma nova identidade.
As modificações físicas são, frequentemente, vividas como um aspecto positivo que reforça o crescimento, embora esta seja uma época que pode ser vivida com uma natural ansiedade marcada pela comparação do próprio com os outros do mesmo sexo.
Há também quem viva o crescimento físico de forma perturbante, e o ataque em fantasia ou na realidade.
Embora, hoje em dia, a informação sobre as questões do crescimento físico sejam acessíveis a quase todos os rapazes e raparigas, podem persistir sempre algumas dúvidas de mais difícil resolução, cuja aprendizagem é, muitas vezes, feita à custa do próprio grupo, mais do que dos familiares próximos. Contudo, é muito importante estarmos atentos a fantasias que se podem construir à volta de sentimentos de medo, vergonha ou culpa, que se organizam à volta de aspectos não ditos, mal esclarecidos ou distorcidos pelo peso de vários factores culturais ou sociais.
A modificação da relação com os pais visa a procura de uma maior autonomia emocional, numa imagem que podemos simbolizar através da necessidade de uma navegação mais ao largo, ou seja, com um bom espaço de liberdade e descoberta pessoal, embora sempre com terra à vista, quer dizer, com o balizamento e controlo dos pais. De novo, os problemas surgem mais facilmente sempre que os padrões de relação tocam os extremos “nunca saio à noite sozinho, mandam sempre um táxi buscar-me à escola...” ou “eu posso sair e regressar às horas que quiser...”
Na construção de uma boa identidade individual que inclui sexual e social, toda a adolescência é marcada pela importância das relações afectivas com rapazes e com raparigas, de idade próxima, na escola e na comunidade. A procura de modelos de identificação e idealização é comum e forte, e aparece expressa nos ídolos da música, da moda, do cinema, da televisão. A construção da identidade individual está, no início, muito dependente do grupo, quer seja por colagem ou por oposição, grupo que desloca e substitui a dependência intrafamiliar.
A afirmação e confirmação do EU está dependente do grupo a que rapazes e raparigas pertencem ou desejam pertencer, e isso deve-se a uma vulnerabilidade comum nesta fase. A diferença está entre conseguir um bom balanço entre a identidade individual e a social, e diluir-se no grupo, por fragilidade própria, “Maria vai com as outras”.
Os adultos oferecem-se como modelos de identificação, marcando uma natural diferença de papéis e gerações.
No início da adolescência, é comum, os rapazes terem grupos predominantemente constituídos por rapazes, o mesmo se passando com as raparigas em relação aos elementos do seu sexo. É também a altura em que amizades fortes se desenvolvem entre adolescentes do mesmo sexo, surgindo também um investimento em pessoas do sexo oposto, e não raramente acontecem as ligações afectivas das mais fortes e duradouras, quando o grupo já está assente em pessoas de ambos os sexos. Para alguns, esta tarefa pode ser muito difícil, para outros, surge com a emergência do investimento na função materna e paterna...
Como vimos esta é uma das últimas grandes fases do crescimento. Talvez nenhuma outra provoque tantas dúvidas, inquietações, ou receios aos pais. Aparentemente temida por uma série de riscos que é vulgar atribuir-lhe, é importante deixar claro que a grande maioria de rapazes ou raparigas vive a adolescência de uma forma saudável e sem grandes problemas. Os pais devem manter-se atentos e abertos ao diálogo, afectuosos e reguladores.
Pais, estejam atentos, no próximo número finalizarei a resposta à questão que me colocaram.

Isabel Morais
Psicóloga

Contactos Úteis:
Associação Família Amiga – 21 381 58 61 /96 978 51 00