Pergunta: Sou cristã, de formação e de convicção, assim como toda a minha família. Apaixonei-me por um jovem de fé não-cristã, que corresponde plenamente ao meu amor. Pensamos casar-nos apesar das nossas diferenças religiosas, mas os pais de ambos manifestam preocupação e desacordo.
Será assim tão arriscado casar-nos? Que fazer?
R: As várias diferenças entre os cônjuges, sejam elas de personalidade, temperamento, percursos de vida, expectativas, etc., longe de serem entraves, são factores de crescimento da relação conjugal e de cada parceiro individualmente. Elas permitem visões diferentes das situações, soluções variadas para os problemas que se apresentam e promovem mudanças que enriquecem o casal. Claro que é indispensável que existam um mínimo de percepções e de grelhas de interpretação comuns que dêem estabilidade e coesão à relação.
Mas, de todas as diferenças, as mais difíceis de conjugar e de usar na construção do casal são as diferenças de valores, porque estes, geralmente, não são negociáveis. Os valores são aquilo em que cremos, pelo qual lutamos, pelo qual nos guiamos. Os valores são a nossa autodefinição como pessoas. Ocupam o primeiro lugar na nossa escala de prioridades, e constituem a nossa mais querida e preciosa pertença. Guiam as decisões que tomamos e configuram a própria natureza do nosso ser. Na realidade, somos aquilo em que acreditamos. Logo, os conflitos de valores, e entre estes os valores religiosos e de culto, são os de mais difícil resolução no casamento, porque esta é a área em que cada cônjuge terá mais dificuldade em ceder, em negociar e em ser tolerante. O sentimento de culpa, de perda de individualidade e o desconforto espiritual que geram podem prejudicar, gravemente, a conjugalidade. Claro que a intensidade dos conflitos em questão de valores é directamente proporcional à intensidade das convicções religiosas de cada um. Na generalidade, a conjugalidade é, apesar de tudo, mais fácil quando um cônjuge é crente e outro descrente do que quando ambos têm fortes convicções religiosas, mas diferentes.
Há casais que conseguem viver vidas religiosas paralelas, cada um vive “a sua”, sob o olhar compreensivo e tolerante do outro, o que pode parecer a solução perfeita; no entanto, o problema levanta-se, incontornável e difícil, quando aparecem os filhos. A pergunta que se coloca então é: daremos educação religiosa aos filhos? Em caso positivo, qual religião? Nesse momento, o acordo pode ser muito difícil e em alguns casos impossível. Quando se é jovem, a ideia de ser pai ou mãe é algo muito longínquo, esta questão não parece pertinente; mas quando o momento de ser pai ou mãe chega, até a pessoa que possa, aparentemente, ter perdido o interesse na religião, por causa do casamento, terá dificuldade em permanecer indiferente em relação à educação a dar aos filhos, e alguns descobrirão que as coisas que antes tinham perdido sentido para eles, voltaram a tê-lo.
A atitude dos dois pares de sogros vem também, quase sempre, complicar a situação, podendo contribuir para acentuar o conflito matrimonial. Cada um estará observando e esperando para ver se o neto(a) será criado na igreja “verdadeira” e podem sentir-se compelidos a pressionar os pais, tentando levá-los a ceder às suas convicções. As crianças poderão então tornar-se joguetes nas mãos de uns e de outros, com evidentes prejuízos para as próprias.
Convidamos a prezada leitora a analisar o lugar que dá, no coração e na vida, aos valores religiosos que defende e que pretende viver e, então, decidir com coerência. Por vezes é necessário escolher entre os valores que definem quem somos e os sentimentos que definem quem queremos.
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