PEDIATRIA/ S&L JANEIRO 2010 pediatria

Uma das anomalias congénitas de maior incidência em crianças é a que compromete o nariz, o lábio e o palato (céu da boca), chamada fissura labio-palatal, lábio leporino ou palato fendido. Por volta dos dois meses de gestação, o embrião curva-se sobre si mesmo e as suas extremidades unem-se e fundem-se, formando todas as cavidades do corpo humano, como a cavidade bucal, a abdominal e a torácica. Quando há uma interrupção do processo natural, ocorrem anomalias congénitas, como a falha na formação da cavidade bucal e até do céu da boca.

Essa anomalia, que é a mais frequente, além de exigir várias cirurgias, requer também o acompanhamento de um terapeuta da fala e de um ortodontista. Dependendo da gravidade do problema, também deve ser seguida por um psicólogo e um otorrinolaringologista. O acompanhamento deve ser realizado preferencialmente em centros especializados, para evitar que ocorram problemas no desenvolvimento da fala.
Cerca de 40% das ocorrências têm origem genética. Outros factores são atribuídos ao uso, durante a gravidez, de irradiação, insulina, corticóides e anticonvulsivantes, à ingestão de drogas, à ocorrência de uma infecção viral e desnutrição, ao consumo de álcool e mesmo ao stresse.

Não há culpado
As crianças que nascem com fissura podem tornar-se um problema para os pais. Muitos escondem a dificuldade por complexo de culpa, achando que são os responsáveis. Outros rejeitam as crianças e alguns superprotegem-nas. O importante é, desde o momento em que a criança nasce, esclarecer que não existe culpado. O comportamento dos pais pode prejudicar a criança, uma vez que toda a atenção da família vai concentrar-se nela e perturbar o seu desenvolvimento psicológico. A grande dúvida, entretanto, é como surge a fissura e o porquê. Em primeiro lugar, lembra Dulce Martins, coordenadora do Programa de Fissurados da Unifesp-EPM, Brasil, é preciso saber que as fissuras estiveram presentes em todos nós, na quarta semana de gestação e desapareceram até à décima semana, quando a face já está formada. Por motivos genéticos, ou ligados ao feto, ou por motivos ambientais, externos ao feto, as fendas não se fecharam e a criança nasce com elas.
A fissura do lábio e do palato pode ser completa, atingindo o lábio, a narina e o palato de um ou dos dois lados, ou incompleta, quando atinge só o lábio ou só o palato parcialmente. Sendo assim, é possível observar 32 apresentações clínicas diferentes.

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Coisas que os pais precisam de saber

1. Além do procedimento cirúrgico, o tratamento para crianças com lábio leporino inclui o acompanhamento do terapeuta da fala e do otorrino. Sem o acompanhamento do terapeuta da fala, por exemplo, a criança poderá ter problemas na fala.

2. As cirurgias devem ser feitas em épocas certas: aos três meses, aos 15, aos 18 e aos 32 meses. A demora na realização da cirurgia dá origem a um círculo vicioso. A criança não pode ser operada por estar desnutrida devido à dificuldade de ingerir alimentos, e não consegue alimentar-se devidamente porque o problema não foi sanado.

3. A criança com lábio leporino e fissura palatal deve ser amamentada e alimentada na posição vertical, para evitar que o líquido e a comida passem para a cavidade nasal.

 

Problemas paralelos
A razão da ocorrência do defeito, em primeiro lugar, deve-se a uma predisposição hereditária que varia de uma família para outra, segundo a médica. Além das alterações genéticas, a fissura pode permanecer por falta ou excesso de vitaminas, medicamentos como a cortisona, talidomida, tabaco, álcool, anemia, diabetes, stresse, raio X ou rubéola.
A cirurgia é o grande destaque do tratamento dos fissurados, mas estudos já comprovaram a eficácia de uma prótese chamada prótese do palato, que é capaz de suprir a sua ausência logo ao nascer.
Ao longo do tratamento, que pode durar de 15 a 20 anos, o paciente com fissura labiopalatal submete-se a diversas cirurgias. A cicatriz cirúrgica pode actuar contra o crescimento craniofacial da criança, o que, a longo prazo, é equilibrado pelo uso de próteses de palato e aparelhos ortopédicos e ortodônticos.
A prótese de palato é indicada em alguns casos específicos, visando respeitar o crescimento craniofacial e facilitar o tratamento.
Em decorrência da comunicação entre as cavidades oral, nasal e ouvido médio, os pacientes fissurados podem apresentar problemas de obstrução respiratória, infecções repetidas das vias aéreas e do ouvido médio, necessitando de acompanhamento multiprofissional em internamento.
Para que a criança possa ser encaminhada para a cirurgia, deverá ter boas condições de saúde. Não deve ter anemia ou infecções. De modo geral, a fissura labial unilateral é operada aos três meses de idade e a palatal até aos 18 meses; mas, em mãos experientes, em centros especializados, o recém-nascido em condições adequadas pode ser submetido à cirurgia do lábio logo após o nascimento e à do palato até aos 10 meses.
A maior preocupação dos pais é como e quando a criança vai falar. A orientação de terapia da fala deve ser solicitada logo após o nascimento, segundo a professora Zelita Ferreira Guedes, responsável pelo Ambulatório de Distúrbios da Comunicação Humana da Unifesp, Brasil. “Muitas vezes”, diz Zelita Guedes, “quando a criança é operada muito pequena, ao chegar à fase de aquisição da fala, ela vai desenvolver a linguagem tendo o palato fechado, já reconstruído, e poderá falar bem. A criança pode ter dificuldade com vários sons quando a fenda está aberta, porque perde a pressão intra-oral que permite a realização dos sons. É nessa fase que ela desenvolve dois problemas de som: a nasalidade e a compensação. Em vez de produzir um p, emite um som gatural; ao articular um s, o que consegue é um som aspirado. Por exemplo: em vez de dizer sapo, diz rapo. A criança precisa de aprender a colocar os pontos articulatórios, língua e lábio. Para ter pressão intraoral e aprender a falar bem.”

missing image fileNa altura de amamentar

1. Ao amamentar, a mãe deve fazer paragens durante a mamada para que a criança arrote.

2. Não se deve evitar o lado da fissura. Pelo contrário, é preciso estimulá-lo para exercitar a musculatura afectada.

3. Após as mamadas, a criança deve ser deitada de lado, para que não haja risco de sufocar.

4. Ao amamentar, a mãe deve ter paciência, pois cada mamada pode durar de 20 a 30 minutos.

5. Se houver dificuldade exagerada para amamentar o bebé, ou se ele chorar mais do que o normal, será preciso procurar a orientação de um pediatra.

6. Se for impossível à criança sugar no seio, a alimentação poderá ser oferecida com a utilização de bicos ortodônticos para melhor posicionamento e estimulação dos músculos orofaciais, o que diminui as sequelas.

 

Prevenção
A prevenção do lábio leporino no bebé inclui aconselhamento genético quando há registo de algum caso na família. Cuidados gerais, como a vacina anti-rubéola antes da gravidez, também ajudam. “Embora não haja dados concretos, existem evidências de que a ingestão do ácido fólico, a partir dos três meses antes até 12 semanas após o início da gravidez, pode contribuir para evitar o surgimento da fenda em alguns casos”, explica a geneticista Vera Lopes. A médica coordena o grupo multidisciplinar Projecto Crânio-Face Brasil.

 

Primeiros atendimentos
Logo após a cirurgia, é necessário tratamento de terapia da fala para que a criança possa entender como se processam todos os sons. Ela procura aproximar-se o mais possível do som natural, do som normal, mas muitas vezes não consegue.
O trabalho é multidisciplinar – cirúrgico, otorrinolaringológico e terapêutico da fala – porque as crianças acabam por ter mais facilidade para ter otites em virtude da inoperância da membrana que apresenta pouca elasticidade, pouca aeração na orelha, provocando perdas auditivas condutivas. Se a criança tiver passado por uma cirurgia de qualidade, e um bom tratamento terapêutico da fala, aos seis anos estará a falar bem.
A ortodontia e a terapia da fala actuam antes e depois da cirurgia reparadora, no sentido de orientar o crescimento correcto do maxilar e da face. Os profissionais dessas especialidades e da cirurgia devem dar o primeiro atendimento ainda na maternidade, porque são eles que preparam e complementam as cirurgias reparadoras e dão orientação aos pais e ao serviço de enfermagem, muito importante nessa fase.

Neusa Pinheiro
Jornalista especializada em assuntos de saúde