CARDIOLOGIA/ S&L JULHO 2010

missing image fileCom a chegada do calor e das temperaturas elevadas que surgem de forma súbita antes e durante a época estival, podem surgir problemas de saúde, por vezes graves, que envolvem, em particular, o sistema cardiovascular, em virtude de não ter ocorrido um processo gradual de adaptação do organismo humano.
O nosso corpo tem a capacidade de manter a temperatura estável, e, quando o sangue é aquecido a uma temperatura superior a 37oC, elimina o calor aumentando a perda de água através da pele, glândulas de suor e através da respiração.
Quando o aumento da temperatura é gradual, o nosso corpo tem tempo de se acomodar ao novo clima e todos os órgãos adaptam o seu funcionamento às novas temperaturas.
Os transtornos provocados pelo calor são resultado do fracasso dos mecanismos fisiológicos que mantêm a temperatura corporal ante uma sobrecarga de calor interna ou ambiental. A exposição a altas temperaturas, sem perda de calor eficiente, pode levar a cãibras, esgotamento devido ao calor ou golpe de calor. Outros problemas menores são edema das extremidades e rubor cutâneo.
Períodos com calor excessivo provocam desconforto em toda a população, mas são mais vulneráveis e necessitam de maior atenção as crianças nos primeiros anos de vida, os idos os, alguns doentes crónicos (como os portadores de doenças cardíacas, respiratórias ou diabetes), doentes mentais, pessoas acamadas e obesas. Para esses indivíduos, os mecanismos de regulação da temperatura poderão ter a sua eficácia comprometida, diminuindo a capacidade de adaptação ao calor.
Estão igualmente em risco as pessoas com condições de vida ou trabalho que as tornem mais vulneráveis, como o isolamento social, a prática intensa de desporto, o trabalho físico em ambiente muito aquecido.
O rendimento físico é grandemente diminuído com a hipertermia – elevação da temperatura do corpo. A fadiga e diminuição do rendimento físico está relacionada com vários mecanismos conduzidos pelos sistemas do nosso organismo. A actividade física está associada com o aumento da produção de calor induzida pela contracção muscular. Durante a contracção muscular, uma parte da energia (70%) é dissipada em forma de calor e a outra parte (30%) é usada para a contracção muscular. Isso significa que quanto mais intenso o exercício (maior a actividade muscular), maior a temperatura corporal atingida, e, consequentemente, o corpo tem de trabalhar mais para não elevar a temperatura corporal. Entra-se num ciclo vicioso.
O stresse causado pelo calor faz com que o funcionamento do sistema cardiovascular se modifique. Há uma vasodilatação cutânea e uma vasoconstrição em diversos órgãos internos, para que o fluxo sanguíneo na pele seja mais rápido, diminuindo o retorno venoso ao coração. O fluxo sanguíneo do fígado, rins e intestinos é, assim, desviado para suprir os músculos, pele, cérebro e pulmões. Essa redução do fluxo sanguíneo para as vísceras pode causar uma oxigenação insuficiente a esses tecidos, libertação de toxinas bacterianas no sangue, danos teciduais causados pela geração de oxidantes e óxido nítrico.
Uma exposição excessiva ao calor pode levar a um agravamento súbito de patologias pré-existentes cardio-respiratórias, situação preocupante em doentes de risco e fragilizados.
Os idosos são particularmente vulneráveis devido ao maior risco de desidratação. Têm uma diminuição da sensação de sede, das capacidades de termorregulação pela transpiração e menor controlo do equilíbrio hidroelectrolítico. A frequente presença de várias patologias e, em alguns casos, a perda de autonomia, incapacita as pessoas mais idosas de terem a capacidade de conseguir adaptar o seu comportamento ao calor, e por vezes de uma coisa tão simples para todos nós como encher um copo de água e beber. Além do que o idoso não sente necessidade de se hidratar e, por consequência, ingere poucos líquidos para as suas necessidades.
As doenças cardiovasculares, a insuficiência renal e as patologias endócrinas (como a diabetes) podem agravar-se em caso de desidratação.
Os idosos têm uma taxa elevada de problemas cardíacos. O excesso de calor e a desidratação faz com que haja frequentemente um agravamento dos mesmos. As arritmias são frequentes e muitos idosos entram nos Serviços de Urgência, no Verão, por arritmias causadas pela desidratação (arritmias surgidas de novo ou por descompensação das já existentes). As variações da tensão arterial são outro problema comum.
missing image fileSendo o calor, por si só, vasodilatador, a tensão arterial tem tendência para diminuir quando as temperaturas ambientes estão elevadas. Os idosos tomam geralmente vários medicamentos, e frequentemente medicamentos para baixar a tensão arterial. Há que ter especial cuidado com este ponto, pois pode haver necessidade de um ajuste da medicação nesta época do ano, por forma a evitar diminuições excessivas da tensão arterial com consequente mal-estar ou mesmo lipotímias (desmaios).
A desidratação torna o sangue “mais espesso”, mais viscoso e mais difícil de circular no sistema cardiovascular.
A queda excessiva de tensão arterial, as arritmias, a diminuição do débito cardíaco (por diminuição do retorno venoso), o aumento da viscosidade do sangue, podem desencadear complicações graves, como enfarte do miocárdio ou acidente vascular cerebral (AVC).

Conselhos práticos e úteis para todos:
Limite o aumento da temperatura no domicílio ou local de trabalho: fechar cortinas ou persianas das janelas ao sol, ventilar o ambiente no período da manhã, ao fim da tarde e à noite para permitir a circulação de ar fresco. O uso de ventoinhas pode ser uma forma de baixar um pouco a temperatura.
Evite a exposição ao sol, especialmente nas horas do meio--dia, permanecendo em espaços acondicionados ou ventilados. Se for necessário ir a edifícios sem ar condicionado, principalmente aqueles com aglomerado de pessoas, procure ir logo pela manhã, para fugir do calor.
Não permaneça em automóveis estacionados ao sol, em especial nas horas de maior calor. Bebés e pessoas mais idosas não devem ir a ambientes muito quentes, como o centro das cidades, em dias de maior calor.
Se for necessário a exposição ao sol, usar chapéu. Use roupas leves (de fibras naturais, como algodão), confortável, não apertada, e de cores claras, óculos e protector solar.
Sempre que possível, procure locais à sombra e arejados para descansar um certo período de tempo. Diminua a actividade física, especialmente em ambientes quentes e húmidos.
Refresque-se regularmente, tomando banhos de duche, vaporizando o rosto com aerossol de água e reduzindo a roupa de cama.
Aumente a ingestão de líquidos mesmo sem estar com sede, para manter uma hidratação adequada, pois é comum a sede das pessoas ser menor do que a necessidade hídrica do corpo. Beba no mínimo 1,5 a 2 litros por dia. Quando realizar exercício físico, beba sem a necessidade de ter sede, antes, durante e após o exercício.
Reponha os sais minerais, com sumos de fruta e saladas, no seu estado natural.
Não consuma bebidas alcoólicas porque alteram a capacidade de resistência ao calor e favorecem a desidratação. Evite também as bebidas com alto conteúdo de cafeína ou muito açucaradas, pois são diuréticas e causam maior perda de líquidos.
Evite comer em grande quantidade, alimentos pesados ou com muitos condimentos. Consumir frutas (melão, ameixas) e vegetais ricos em água (tomate), mas com cuidado, na limpeza e manipulação higiénica.
Não deixe de telefonar para a família, vizinhos ou profissionais da saúde se se sentir mal por causa do calor. As pessoas mais vulneráveis que vivem sozinhas, especialmente as idosas, devem ser contactadas duas vezes por dia em dias excessivamente quentes, para saber se estão bem.
Na praia, evite sempre as horas de maior calor, entre as 12-17h, em que os raios ultra-violetas estão mais intensos. O cancro da pele está em crescimento em Portugal, e todos os anos aparece um número muito mais elevado de casos. Faça uso de chapéus e não se exponha ao sol mais de 1h no total. Use protectores solares, devendo sempre usar os factores de protecção mais elevados, principalmente em crianças e em pessoas de pele clara. O protector solar evita os efeitos nefastos do sol, mas mantém os benefícios. Saiba que os protectores com um factor de protecção baixo têm de ser frequentemente aplicados e os com factor de protecção mais elevado podem ser aplicados menos vezes, mas, ao contrário do que muita gente pensa, os mais baixos não dão maior bronzeamento à pele (apenas permitem mais queimaduras solares). Estes cuidados terão de ser redobrados em crianças, porque têm a pele mais sensível.
As pessoas com doenças cardíacas devem perguntar ao seu médico se podem ir à praia. De um modo geral, podem ir em horas mais frescas, recomendando-se entre as 8-11h, e devem fazer pequenas caminhadas pela praia para melhorar a circulação corporal. Devem respeitar os conselhos acima descritos e, no caso de quererem ir à água, recomenda-se que entrem sempre muito devagar, permitindo que o corpo se adapte à temperatura. Nunca devem nadar fora de pé, mas sim sempre ao longo da praia, sendo recomendado que fique alguém a vigiá-los, à semelhança do que fazemos com as crianças.

Madalena Carvalho
Cardiologista