EDITORIAL

O sinal da corte

É quase sempre a uma refeição que surgem conversas como esta, que aqui lhe conto, caro Leitor. Afinal, a mesa é um dos locais que melhor contexto proporciona para a comunicação: conversa direta, em frente ou ao lado dos interlocutores, num momento de descontração e prazer. Isto se e quando a refeição ainda é esse encontro.
Entre casais amigos, surge um dos tópicos de conversa que mais se presta a comentários jocosos – o casamento. É quase inacreditável como o maior símbolo de amor para quase todos e uma união sagrada para muitos se transformam facilmente num objeto de piada fácil. Este casal de seniores debatia a pretensa falta de conversa em sua casa:
– Eu não falo muito, é verdade, mas é só para não te interromper – disse ele, com um sorriso maroto, provocando o riso aos convivas.
– Até parece! – respondeu a senhora, afetada. – Se não respondes ao que te digo é porque tens sempre os olhos e os ouvidos na televisão. Qualquer dia telefono-te para o trabalho, a marcar uma reunião.
Esta conversa tem já mais de vinte anos. Mas não será ela, hoje, ainda mais exemplificativa da realidade da comunicação entre muitos casais, tendo em conta o aumento da pressão da vida profissional e da omnipresença dos meios de comunicação na vida pessoal para ambos os membros do casal?
A comunicação, mais precisamente a sua falta em quantidade e em qualidade, é, de facto, um dos maiores problemas da sociedade atual. A comunicação promove a abertura de horizontes, o conhecimento mútuo, a compreensão e o entendimento; a ausência ou deficiência de comunicação gera acanhamento no próprio reduto, ignorância, desconfiança e conflito. A capacidade de comunicar e a abertura à comunicação aproximam gerações, povos, nações, civilizações e contribuem para a harmonia e para a paz, nas comunidades e na sociedade. Mas de nada valem as ideias magníficas e as palavras grandiloquentes sobre os benefícios extraordinários da comunicação para a Humanidade, se ela não existir e não transformar entre os mais próximos, dentro de cada família. E para isso é necessário conceber a comunicação – a verdadeira: interessada e não indiferente, intencional e não rotineira, transparente e incondicional – como um dos fundamentos da vida conjugal, indispensável à felicidade de um homem e de uma mulher que decidem e aceitam construir um percurso em comum. Como o coloca Miguel Esteves Cardoso: “Para uma família ser feliz, é necessário haver sedução.” Diz o autor que os filhos têm de seduzir para encantar os pais; que estes têm de se esforçar para educarem por convencimento dos filhos; que marido e mulher, para permanecerem juntos, necessitam de uma corte constante. E culmina o pensamento com as frases: “O mal da família é a facilidade. É pensar que aquele amor já é assunto arrumado.”
É precisamente sobre a importância da comunicação no casamento, mais precisamente a sua característica de via de sentido duplo, que se debruça a rubrica Saber e Viver da sua Saúde & Lar deste mês, que prosseguirá e terminará no próximo número. Até lá, uma boa comunicação em família.


Paulo Sérgio Macedo
Coordenador Editorial