NUTRIÇÃO

O alto preço da Obesidade

Um relatório global de nutrição revela que as pessoas obesas estão desnutridas, devido a escolhas erradas na alimentação.

Comer, comer e comer. Será que uma boa nutrição se resume a comer sem se importar com o quê? O dito popular “somos aquilo que comemos” parece fazer cada vez mais sentido. Pelo menos é o que aponta o Relatório Global de Nutrição deste ano: Uma em cada três pessoas sofre de desnutrição. Isso é possível? Num mundo em que se pode até pedir comida pelo telemóvel?! O que também surpreende é que as pessoas obesas estejam entre as desnutridas. É exatamente isso que acabou de ler: obesidade não é sinónimo de nutrição – ou “extra nutrição”. Pessoas obesas estão desnutridas, apesar do acesso a grande quantidade de comida. Estão desnutridas porque comem mal, acumulando açúcar, sal e colesterol no sangue. “Infelizmente, ainda é muito comum associar a presença de obesidade ao bom estado nutricional. Assim, existe uma tendência para o consumo de alimentos mais energeticamente ricos, independentemente do valor nutricional que tenham. Isso ocorre especialmente entre indivíduos com pouca ou nenhuma informação”, destaca Maria Edna de Melo, doutora em Endocrinologia pela USP e diretora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso). A nutricionista Patrícia Lessa, especialista em Nutrição para Crianças e Adolescentes, acrescenta que as carências nutricionais não estão relacionadas exclusivamente com a fome e com a má nutrição. O desequilíbrio entre o que é necessário e o que é consumido leva ao acúmulo de gordura devido ao abuso de alimentos ricos em açúcar, sal ou gorduras saturadas. Estar devidamente nutrido não pode ser definido apenas pela aparência, mas, sim, pelos hábitos cultivados. “Nutrir é oferecer ao organismo tudo do que ele precisa para o seu bom funcionamento. A falta de um ou mais dos nutrientes necessários compromete aquilo a que chamamos homeostasia (equilíbrio)”, observa o nutricionista Ricardo Vargas. Além disso, a boa nutrição deve estar associada a uma alimentação regular e adequada “a idade, sexo, atividade física, condições socioeconómicas, climáticas, culturais e religiosas. O guia para uma alimentação equilibrada é a figura da pirâmide alimentar. O consumo correto das porções desses grupos é a maneira simples de compreender e adquirir hábitos alimentares saudáveis e, consequentemente, de melhorar a qualidade de vida”, propõe Patrícia Lessa. No extremo oposto da boa nutrição está a desnutrição, que não está ligada apenas ao Índice de Massa Corporal (IMC). De acordo com especialistas, apesar de medir a corpulência da população, o IMC não é suficiente para classificar pessoas nutridas e desnutridas. “Esse método de avaliação não especifica as massas corporais como, por exemplo, massa muscular ou magra, massa de gordura, ossos e água. Sendo assim, o risco de subestimar ou superestimar o estado nutricional é muito alto e as metas para prevenção, tratamento e manutenção do peso corporal ficam limitadas”, explica Patrícia Lessa. “Olhar apenas a aparência física de uma pessoa revela muito pouco do seu estado nutricional”, indica Ricardo Vargas. Ao contrário do conhecimento popular em que a desnutrição está associada a dietas pobres em calorias ou proteínas, o verdadeiro quadro de má nutrição é desenvolvido pela ingestão insuficiente de nutrientes essenciais. “Uma alimentação desequilibrada em macro e micronutrientes favorece o surgimento de sinais e sintomas específicos da má nutrição, como: apatia, perda de massa muscular, aumento das taxas de gordura no sangue, engrossamento da pele, queda capilar, enfraquecimento de unhas, ineficiência do sistema imunológico, carências nutricionais”, esclarece Patrícia Lessa. Outros sintomas relacionados com a desnutrição, segundo Vargas, são: cansaço no fim do dia, sonolência diurna, insónia, irritabilidade, falta de concentração e de memorização, dificuldade para perder peso e ganho de peso repentino. A obesidade pode ser definida como um estado inflamatório, logo, quanto maior for o nível de gordura, maior será o processo inflamatório no corpo, segundo os especialistas. É classificada como condição de obesidade a massa adiposa que ultrapassa 20% do peso total do indivíduo. “A obesidade, na sua maioria, é uma doença genética. As pessoas herdam os maus hábitos. Crianças reproduzem o comportamento dos adultos. Se essa cadeia não for quebrada, teremos uma geração mais obesa do que hoje. Até aos sete anos, as crianças estão a formar o seu caráter, e nesse período elas aprendem por um princípio de imitação, ou seja, reproduzem o que veem. Daí a importância de a mudança partir do adulto”, orienta Vargas. Uma alimentação pobre em nutrientes, responsável pela desnutrição, também está ligada ao aumento de gordura corporal e à dificuldade em perder peso. Segundo o nutricionista, uma alimentação inadequada resulta em fome em intervalos mais curtos, “e sempre que comemos, o pâncreas liberta insulina que favorece a formação dos depósitos de gordura”. Sendo assim, acrescenta Patrícia Lessa, “sabe-se que o aumento da glicose no sangue (hiperglicemia) favorece o aumento no acúmulo de gordura abdominal, podendo desencadear a diabetes tipo II, doença não transmissível que está a tornar-se num problema de saúde pública”.

Transição nutricional
Juntamente com o desenvolvimento e, consequentemente, com a maior distribuição de rendimentos e o aumento da classe média ocorrido nos últimos anos, a população passou a consumir mais produtos, incluindo os alimentos industrializados, resultando na chamada “transição nutricional”.
Durante o processamento industrial, além da perda de nutrientes, outro problema é o aumento da densidade energética do alimento. Hoje temos muitas calorias embutidas em pequenas porções de alimentos. Por exemplo, em 100g de arroz branco cozido encontram-se 129kcal. Já em 100g de biscoitos recheados há 456kcal, porção equivalente a apenas 10 biscoitos”, destaca o nutricionista Ricardo Vargas. A transição nutricional trouxe uma série de malefícios à saúde, graças à preparação industrial dos alimentos. “Produtos com excesso de sal, seja para conservação ou para acentuação de sabor nos alimentos, preparações com quantidades enormes de açúcares simples, hidratos de carbono refinados, xaropes de milho, gorduras trans, são ‘excelentes’ aliados para o acúmulo de gordura corporal e enfraquecem o metabolismo e a absorção de vários micronutrientes essenciais ao adequado funcionamento do organismo”, explica a nutricionista Patrícia Lessa. Mas essa transição deu-se por causa da carência de alimentos saudáveis ou por hábitos maus? Patrícia acredita que haja uma relação entre os dois, já que os fatores ambientais e comportamentais podem favorecer a obesidade e a má nutrição. Já Vargas enfatiza a necessidade de voltar a comer os alimentos naturais e deixar de lado os industrializados, tendo em vista que muitos desses alimentos são classificados como saudáveis, mas não o são. Para reverter o quadro, primeiro é preciso reconhecer a necessidade de mudar. A mudança de hábitos inadequados deve estar relacionada com a exclusão dos “fatores de risco para a obesidade, implementando medidas saudáveis para o estilo de vida, como: alimentação equilibrada, em que frutas, vegetais, cereais integrais são incentivados na dieta (aumento das fibras alimentares); prática regular de exercício físico; e respeito para com as horas de sono”, adverte Patrícia Lessa. Para a mudança eficaz da população é necessária uma nova transição nutricional, mas, desta vez, indo dos alimentos industrializados para os alimentos in natura. “Qualquer mudança deve ser gradativa. A minha sugestão é que se comece a incluir alimentos saudáveis antes de retirar os alimentos nocivos para a saúde. Temos que aumentar a oferta para depois promover o abandono dos alimentos nocivos, evitando, assim, a falta de opções de um regime alimentar monótono”, sugere Vargas.

Obesidade desnutrida na infância
A obesidade desnutrida pode dar os seus primeiros sinais já na infância e as suas consequências não são nada agradáveis. A desnutrição, apesar do excesso de peso, pode causar atraso no desenvolvimento corporal e cognitivo que está diretamente relacionado com a oferta de nutrientes. “Deficiências de ferro, magnésio, zinco, vitamina C, vitamina D, vitamina Bl2 e ácido fólico podem comprometer a aprendizagem e a formação da memória a longo prazo”, destaca Vargas. Ainda segundo o nutricionista, uma pessoa obesa tem a tendência de ingerir mais hidratos de carbono e poucas proteínas. Estas são essenciais para a produção de hormonas, entre elas a GH, conhecida como hormona do crescimento. “Essa hormona cumpre um papel importante no crescimento em estatura, desenvolvimento dos órgãos, controlo da formação de depósitos de gordura, entre outras funções na infância”, esclarece. Os três primeiros anos de vida são decisivos para uma boa saúde, ainda na infância e também na vida adulta. Nesse período formar-se-ão e consolidar-se-ão as células adiposas (de gordura). “Já é comum vermos crianças com idade inferior a sete anos com distúrbios metabólicos, como colesterol alto, triglicéridos elevados e prejuízos psicossociais, como depressão, baixa autoestima, dificuldade de aprendizagem e de locomoção, entre outros. Se as alterações metabólicas não forem tratadas, podem resultar no desenvolvimento de várias doenças degenerativas crónicas, como aterosclerose, doença coronária, hipertensão arterial e diabetes tipo II”, alerta a nutricionista Patrícia Lessa.
E não adianta pensar que uma alimentação excessiva na infância seja a solução para os problemas. Ao contrário, vale muito mais uma alimentação regrada com valor nutricional real. “O excesso de peso precede o quadro de obesidade e é caracterizado pelo consumo excessivo de calorias em relação ao gasto diário. Existe uma infinidade de produtos alimentares altamente energéticos, porém, compostos de calorias vazias. Observa-se nessas crianças o consumo regular desses tipos de alimentos e uma dieta pobre em frutas e verduras”, diz Patrícia Lessa. De acordo com os dados mais recentes, em quatro décadas o défice de altura nas crianças de 5 a 9 anos caiu (na década de 1970, as crianças não desenvolviam a altura correta por causa da desnutrição infantil). No entanto, ocorreu um aumento explosivo, principalmente nas últimas duas décadas, do excesso de peso corporal e de obesidade nessa mesma faixa etária. Os índices de obesidade quadruplicaram entre meninos (de 4,1% em 1989, para 16,6% em 2009) e meninas (de 2,4% em 1989, para 11,8% em 2009). Antes, acreditava-se que uma criança gordinha fosse sinónimo de saúde. Ainda hoje, muitas pessoas acreditam nisso. Para desmistificar o assunto, o Relatório Global de Nutrição apresenta uma nova definição do termo “desnutrição”, mostrando que é totalmente possível estar acima do peso e subnutrido. Para reverter a situação ainda na infância é preciso grande empenho, desde os pais até aos governos. “A família, a escola e o governo devem comprometer-se em educar e adotar hábitos alimentares e estilo de vida favoráveis ao bom desenvolvimento infantil, seja nutricional, fisiológico, emocional e social”, diz Patrícia Lessa. Na prática, os hábitos alimentares das crianças devem ser mudados aos poucos. “As crianças não devem fazer dietas restritivas em calorias. É preciso mudar os hábitos alimentares gradualmente. O peso vai-se ajustando conforme as crianças crescem. As carências nutricionais muitas vezes precisam de ser corrigidas com o auxílio de suplementos”, defende Vargas.

O alto preço da obesidade
Atualmente, existem mais pessoas que estão com excesso de peso do que abaixo do peso. É isso que mostra um estudo desenvolvido pela consultoria McKinsey. Cerca de 2,1 mil milhões de pessoas no mundo sofrem de excesso de peso, das quais 670 milhões estão em situação de obesidade. O número significa que quase 30% da população mundial está com mais peso do que o normal. E a estimativa não é das melhores. A consultoria acredita que a percentagem subirá para a metade dos habitantes da Terra até 2030. “Os países com crescimento acelerado de obesidade precisam de propor medidas de prevenção e combate às situações de risco por meio da captação de recursos governamentais e de doadores, alternativas baratas, práticas e criativas, capacitação de profissionais para instrução nutricional da população e integração de políticas de prevenção e controlo das doenças ocasionadas pelo peso excessivo e pela obesidade”, sugere Patrícia Lessa. Educação nutricional nas escolas, aumento dos impostos sobre alimentos processados, restrição das campanhas de marketing com esses alimentos e tantas outras medidas poderiam ser adotados para a redução da obesidade. O Relatório Global apresentou um cálculo em que cada dólar gasto em programas de incentivo à nutrição resulta em 16 dólares de benefícios para a população. “Precisamos de entender o que o Relatório Global concluiu sobre esse aspeto. Quanto mais recursos financeiros forem despendidos com ações de educação em saúde, saneamento básico, higiene e agricultura, melhor será o crescimento económico do país em questão”, explica Patrícia Lessa. Além disso, a maioria das campanhas tem como foco os problemas causados pela obesidade, mas não as vantagens da mudança no estilo de vida. “Deveria haver um esforço por parte das autoridades para mostrar as vantagens de se consumir alimentos integrais, os benefícios das mais variadas frutas, verduras e hortaliças. Os alimentos têm propriedades preventivas e curativas e a população precisa de saber disso”, diz Vargas. A gravidade do problema com a obesidade é tão grande que se equipara ao tabagismo, à violência armada e ao terrorismo, segundo a McKinsey. As suas consequências podem ser vistas em números que afetam a economia dos países, desde a saúde à queda de produtividade e ao aumento do absentismo no trabalho. O custo anual da obesidade para os Estados Unidos chega a 153 mil milhões de dólares, de acordo com a consultoria Gallup. Na Europa, o valor está perto dos 160 mil milhões, segundo estudo do Bank of America-Merrill Lynch. Os dados são a prova de que a obesidade custa muito aos cofres públicos. A pergunta é: “Será que realmente há interesse em mudar? Quanto chega aos cofres públicos em impostos derivados da venda de produtos processados e ultraprocessados, medicamentos, consultas médicas e muitos outros gastos que a obesidade gera para um indivíduo? O gasto dos governos é infinitamente menor do que o que recebem”, reflete Vargas.

DeficiÊncias da obesidade desnutrida

Nutrientes essenciais para o bom funcionamento do organismo, mas que são deficientes em crianças e adultos com o quadro de obesidade desnutrida.

Ferro
O ferro é responsável por muitas funções do corpo, atua na síntese das células vermelhas (hemoglobina) e tem como principal ação o transporte de oxigénio no organismo. “O ferro pode ser encontrado em produtos de origem animal e vegetal. Muita gente acredita que o ferro esteja presente somente nos produtos de origem animal, especialmente na carne vermelha. Mas é bom ressaltar que o ferro é abundante no reino vegetal também. Todos os vegetais de cor verde-escura, o gergelim, as sementes de girassol, o feijão e o açaí estão entre as principais fontes”, revela Vargas.

Zinco
O zinco regula o apetite, a produção e a secreção da leptina, auxilia na queima de gordura, potencializa o efeito metabólico da insulina, melhora a imunidade e também age como antioxidante celular. “A deficiência desse micronutriente leva ao aumento de processos inflamatórios que facilitam o acúmulo de gordura corporal”, afirma Patrícia Lessa. “As suas principais fontes são os alimentos integrais, a castanha-de-caju e a castanha-do-Brasil.

Cálcio
As funções do cálcio são: manutenção de ossos e dentes, regulação da contração muscular, controlo da acidez sanguínea. Esse mineral não deve ser ingerido, numa mesma refeição, com fontes de ferro. A combinação desses minerais provenientes de fontes diferentes forma no intestino complexos que impedem a absorção de ambos. O cálcio deve ser combinado com a vitamina D para que o intestino possa realizar uma absorção mais eficaz.

Vitamina A
A vitamina A tem como principal função a saúde visual, mas também tem um papel importante na regulação da expressão génica do ADN, fortalece o sistema imunológico, aumenta a capacidade funcional dos órgãos reprodutores, faz a manutenção de tecidos como pele e cabelo. As fontes alimentares com vitamina A são: leite e derivados, ovos, cenoura, batata-doce, espinafre cozido, couve-manteiga refogada, manga, mamão, tomate.

Vitamina C
A vitamina C está relacionada com a função antioxidante no sistema imunológico e reparação de tecidos. Atua também na prevenção de doenças, ajuda na formação de colagénio, que é essencial para os ossos, dentes, vasos sanguíneos e tendões. As fontes de vitamina C são: morango, acerola, kiwi, frutas cítricas, tomate, cenoura, pimentão-amarelo, mamão, goiaba, manga, brócolos.

Vitamina D
A vitamina D é responsável pela proteção contra o cancro, redução dos processos inflamatórios, absorção do cálcio intestinal, controlo da ansiedade, prevenção de doenças inflamatórias, controlo da fome. A sua obtenção está diretamente ligada à exposição ao sol, no tempo e na quantidade corretos. Os raios responsáveis pela produção de vitamina D são os UVBs que são captados pela pele no período das 11h até às 13h, sendo que o tempo de exposição depende da cor da pele: brancos 15 minutos; morenos 20 minutos e negros 30 minutos.

Ácidos gordos essenciais
Os ácidos gordos essenciais não são produzidos pelo corpo e precisam de ser ingeridos todos os dias. Eles auxiliam na produção de energia, no desenvolvimento muscular, transportam vitaminas para as células, participam da regulação hormonal e contribuem para o bom funcionamento do sistema nervoso. Podem ser encontrados em óleos de peixe, óleos vegetais (girassol, milho, soja e algodão), sementes, nozes, abacate, açaí, espinafre, brócolos, salsa, couve-flor, repolho.


Bruna Genaro
Jornalista, colaboradora da nossa congénere brasileira Vida e Saúde.