Porque é que eles não perguntam?– Pergunto eu!

Distribuí a ficha de revisões com a mesma anotação de sempre: “Se não entenderem seja o que for ou tiverem alguma dúvida, perguntem.” Lá pelo meio a palavra “freguês” acabou por ser analisada e classificada individualmente por quase toda a turma, até que alguém desabafou: “Eu não sei o que é freguês!” Sugeri que perguntássemos aos colegas que já tinham resolvido a questão – e eram muitos. Mas ninguém sabia! Então, porque não perguntaram? Tenho visto que o mesmo se passa quando algum deles se perde na leitura em grande grupo, ou quando não compreende uma estratégia usada na resolução de um problema. Se não os confrontar, não me dou conta da sua dificuldade. Porque não pedem ajuda? Desde o início que incentivo a formulação de questões e a apresentação de dúvidas, afirmando que elas me deixam feliz, na medida em que revelam o interesse e a atenção dos alunos. Existem, de facto, evidências que apontam para um impacto positivo das perguntas dos alunos no seu envolvimento e nas suas próprias aprendizagens. Por isso mesmo, e porque só conhecendo as suas dificuldades os poderei ajudar a superá-las, tento identificar e desmontar as razões que os levam a não perguntar. O que é curioso é que as razões que identifico como mais frequentes são igualmente apontadas em estudos realizados com alunos de ciclos posteriores, parecendo que se mantêm transversalmente ao longo da escolaridade:
– Vergonha/inibição.
– Receio de ser considerado pouco inteligente pelos colegas e até de ser gozado.
– Receio da reação do professor.
– Desinteresse/alheamento do processo de aprendizagem.
Acolhendo as dúvidas com entusiasmo, tento também desmontar a baixa autoestima subjacente às duas primeiras razões, dizendo-lhes que “só pergunta quem é inteligente”. Mas,… chegarão eles alguma vez a compreender o sábio Aristóteles e a aceitar ativamente que “a dúvida é o princípio da sabedoria”?

Jorge Branquinho

Prof. 1º Ciclo, Mestre em Ciências da Educação